Turbofolk música dançante (servo-croata) ao estilo do Funk Carioca
22:12 | Marcadores: Brasil, Carioca, Funk, Turbofolk | 0 Comments
FUNKEIROS, TIMBALEIROS E PAGODEIROS
Palavras-chave: Juventude. Cultura negra. Bahia. África.
Freqüentemente, o debate sobre juventude em contextos urbanos enfoca questões como evasão escolar, violência e criminalidade, abandono social, sexualidade, inserção no mercado de trabalho ou conflito de gerações. Temas que esboçam uma preocupação em torno de desastres sociais e perspectivas de futuro para cidadãos em formação. Na cidade de Salvador, capital do estado da Bahia, estas questões aparecem num contexto onde, segundo estatísticas oficiais, cerca de 80% da população é formada por negros (pretos e pardos). Estes negros são as vítimas mais constantes da repressão policial, são quase invisíveis nos meios de comunicação, são as maiores vítimas do desemprego, exercem as funções que exigem menor qualificação, recebem salários mais baixos e mais dificilmente ascendem no emprego; têm maior dificuldade de acesso ao ensino superior e público e tendem a ocupar vagas nos cursos superiores menos prestigiados (Castro & Barreto, 1998; Queiroz, 2000). Neste contexto, os baianos, de um modo geral, e os jovens negros, em particular, cultivam um sentimento positivo de diferença em relação ao Brasil e ao mundo (Pinho, 1998a), assim como um sentimento de indiferenciação racial; evadidos da escola, propensos à violência, ao crime e ao desemprego, estes jovens negros são objeto de imagens e representações culturais que orientam a idéia de uma juventude alegre, lasciva, musical, festiva e exótica. A perspectiva cidadã desta juventude em Salvador me parece, portanto, fundamentalmente racializada.1
Neste artigo, baseado em notas de vários autores (Vianna, 1988; Cecchetto, 1997; Silva, 1997; Sansone, 1997; Pinho, 1998b; Godi, 2001) e nas minhas próprias investidas etnográficas (Lima, 1997; 2000), pretendo discutir a música,2 em seu aspecto racialista, como configuradora de sentido para uma idéia de juventude negra em Salvador. Acredito que, se por um lado, através da música, nos últimos 30 anos, gerações sucessivas de jovens negros, conscientes dos seus limites para aquisição de cidadania, elaboraram formas musicais que se transformaram em expressão de identidade juvenil, em estratégias de afirmação étnica e racial, em projetos anti-racistas, por outro lado, estas mesmas formas musicais serviram para reatualizar estereótipos em relação ao negro e controlar as perspectivas de uma juventude negra expressiva e majoritária.
Juventude e geração
A princípio, a noção de juventude se define por um aprofundamento biológico do processo vital de um indivíduo. Neste processo, os jovens passam por notórias alterações orgânicas e anatômicas que o distinguem de uma criança ou de um indivíduo adulto. Mas, justamente, enquanto decorre este processo orgânico e anatômico, os jovens costumam também sofrer uma forte pressão social. Isto porque se manifesta na família, na escola, no segmento social de origem ou entre os grupos de amigos uma expectativa em torno de uma consciência juvenil apta à aceitação de novos papéis sociais, à aquisição de responsabilidades e elaboração de projetos de futuro. A juventude se torna, então, mais do que o aprofundamento biológico do processo vital do indivíduo, um aprofundamento crítico, ritualizado, integrador ou libertário em relação ao tempo, ao espaço e à ordem social. Historicamente determinado, este processo vital reflete injunções de classe, raça, gênero, escolaridade e mesmo dos modelos de relações entre uma "geração" antecedente e outra posterior.
Uma das formas de conferir unidade e maior clareza de sentido à noção de juventude é associá-la à idéia de geração. Marialice M. Foracchi (1972) afirma que se define uma geração através de um estilo de ação peculiar, uma uniformidade de locação social estranhos a uma geração anterior. Isto significa que uma geração compartilha experiências, situações de vida e oportunidades de trabalho, benefícios e opressões, tensões e alegrias prefiguradas por um modo geracional de locação na estrutura social.
A análise do fenômeno da locação social permite estabelecer diferenças entre o fenômeno das gerações e dos grupos sociais, dando a unidade das gerações como sendo essencialmente constituída pela similaridade de locação. Só é possível, contudo, caracterizar o fenômeno da similaridade de locação, quando se especifica a natureza da estrutura através da qual os grupos de locação emergem na realidade histórico-social. A geração constitui, assim, uma modalidade particular de localização social. Há uma "tendência", inerente a cada geração, que pode ser determinada pela natureza particular da locação como tal, a qual é sociologicamente estabelecida pelo tipo de relações de locação que mantém com outros membros da sociedade, diferentemente situados diante do processo histórico-social. (Foracchi, 1972, p. 20)
É bom lembrar que a reflexão de Foracchi sobre geração e juventude se enquadra no limite sociológico de uma juventude branca, urbana, de classe média e universitária, que protagonizou as rebeliões estudantis no final da década de 1960. Deste modo, a autora busca a uniformização de uma determinada geração juvenil a partir do conflito determinado pela crítica a valores e perspectivas de adesão social de uma geração anterior pertencente a um mesmo grupo de locação. Eram universitários em crise com a preservação, transmissão e renovação de um patrimônio cultural, preocupados com suas possibilidades de atuação social e dinamização do sistema social mais amplo.
Ainda a propósito da noção de geração, Jean-François Sirinelli (1996) observa que é uma tarefa complexa responder o que é uma geração. O autor pergunta se a geração é um padrão que permite dividir o tempo ou se seria uma espécie de metrônomo que marca com regularidade o tempo que passa. Desse modo, por muito tempo, a tentativa de definir a noção de geração colocou o historiador diante do perigo da banalidade ou generalidade do propósito. Banalidade porque todas as sociedades humanas conhecidas estabelecem a sucessão de faixas etárias; generalidade porque, por esta mesma razão, "o uso da noção de geração fica às vezes na superfície das coisas, sendo antes elemento de descrição do que fator de análise" (Sirinelli, 1996, p. 132).
Sirinelli observa também que estabelecemos os limites de uma geração como elemento de "periodização" econômica, social, política e cultural. Só que se a noção de "periodização" remete à de regularidade, os fatos inauguradores de uma geração se sucedem de maneira forçosamente irregular e são de geometria variável em relação aos registros econômico, social, político e cultural. Isto promove gerações "curtas" e gerações "longas", plásticas em relação à verticalidade do tempo. Para este autor, a geração deve ser tomada então como uma escala móvel do tempo, como uma estrutura que contribui para reabilitar o acontecimento. Mais ainda, deve ser tomada como uma auto-representação, uma autoproclamação diferencial dos sujeitos diretamente envolvidos, assim como uma reconstrução do historiador que classifica e rotula.
Alba Zaluar (1997) afirma que, no Ocidente, o interesse científico pela juventude e sua definição como categoria analítica teve grande impulso nos anos 20, quando na cidade de Chicago, nos Estados Unidos, jovens italianos, judeus, irlandeses, afro-americanos, entre outros, formaram uma geração que se tornou objeto de estudos sistemáticos que discutiam as implicações entre juventude, violência, criminalidade e desorganização social urbana. Desde então, o trânsito zona rural versus zona urbana ou o esmaecimento de laços tradicionais de família e vizinhança foram vistos como favorecedores de atividades criminosas, violência e marginalização juvenil, suscitaram teorias que ora centradas na idéia de crise e desorganização social, revelavam um compromisso com a ordem estabelecida e com uma forma homogênea de organização social; ora centradas na idéia de frustração, denunciavam o caráter competitivo de uma sociedade que não oferecia as mesmas oportunidades de ascensão para todos os grupos e categorias sociais; ora centradas no processo de rotulação de jovens moradores de guetos e bairros pobres como 'delinqüentes' pelo governo, pela polícia e pela justiça, observavam que, a rigor, se tratavam de jovens à deriva, vivendo conflitos próprios de idade (Zaluar, 1997).
Todas essas teorias foram, em maior ou menor grau, criticadas pelo seu compromisso com o positivismo que transformava as pessoas em objeto e seu comportamento em fatalidade ou determinação, dificultando o entendimento delas enquanto sujeitos que participariam de forma ativa nas suas escolhas e ações, apesar das constrições e pressões de forças de várias ordens (Jankowski, 1991; Katz, 1988; Matza, 1964). Por causa disso, nenhuma delas poderia explicar porque percentuais tão baixos de pobres, números pequenos de negros e poucas pessoas pertencentes a algumas minorias étnicas enveredam, de fato, em carreiras criminosas. (Zaluar, 1997, p. 20)
No Brasil, a complexificação que a sociedade brasileira vem alcançando desde as primeiras décadas do século XX, através da emergência, organização e reivindicação política de novas categorias sociais urbanas como: operários, pobres, mulheres, negros, "desviantes" da lei ou da moral sexual, como prostitutas, homossexuais e jovens etc., em alguma medida deslocou o pensamento social do ponto de vista das elites. Assim, se os pesquisadores necessariamente não assumiram o ponto de vista destes novos sujeitos, defenderam ao menos a legitimidade da inflexão dos mesmos na sociedade (Durham, 1997). Desse modo, também a socioantropologia nacional sobre a juventude urbana, sob o impacto de teorias estrangeiras, de dinâmicas sociais internas e do surgimento de pesquisadores diretamente envolvidos com os seus objetos, vem refletindo sobre pequenos grupos de identidade juvenil circundantes e vem enfrentando a dificuldade ou a limitação de trabalhar com conceitos, categorias analíticas e ângulos de observação importados, muitas vezes inadequados para refletir sobre objetos, relações e estruturas sociais geradores de dimensões simbólicas particulares.
Juventude negra e música
Ao propor refletir sobre a idéia de juventude através de sua relação com a música, necessariamente, não desprezo temas ou questões como trabalho, educação, violência ou criminalidade. Observo, entretanto, que a despeito da importância de se pensar a relação entre juventude e estes temas citados, tal proposição acaba sempre repondo a idéia de juventude e a experiência juvenil no nível da falta de sentido em relação à sociedade civil organizada ou a estruturas sociais hegemônicas. Ao incidir, portanto, sobre a relação entre juventude e música negra, no âmbito da experiência de jovens negros na cidade de Salvador, considero este nível analítico comum, mas o reposiciono em direção a um excesso de sentido ou "excesso etnográfico"3 que esta experiência juvenil promove em relação à sociedade civil ou estruturas sociais hegemônicas. Considero o meio musical em Salvador uma estrutura social descritível, relacional, reflexiva e racializada, onde é possível identificar grupos juvenis de locação ou grupos geracionais móveis autoproclamados, auto-representados e exteriormente classificados como tal.
O binômio juventude negra e música tem despertado o interesse analítico de diversos autores no Brasil (Sansone & Santos, 1997; Vianna, 1988; Vianna, 1997; Herschmann, 1997; Silva, 1995; Amorim, 1997; Félix, 2000; etc.). Na Bahia, os autores que escrevem sobre o assunto não institucionalizaram a discussão, mas dialogam entre si, influenciam uns aos outros, assim como absorvem também influências de estudos realizados em outras regiões como o Rio de Janeiro (Sansone & Santos, 1997). Logo, antes de tratar mais detidamente das minhas próprias notas etnográficas, vou me referir a alguns destes autores e estudos na Bahia. Antes ainda, considerando as constantes e importantes correspondências entre música e cultura negra que a Bahia e o Rio de Janeiro sempre estabeleceram, refletidas no meu trabalho e no de outros autores baianos ou radicados na Bahia, citados aqui, vou me referir a dois estudos realizados no Rio de Janeiro. Distanciando-me ou aproximando-me dos mesmos, pretendo então evidenciar vértices comuns que determinam culturas e identidades juvenis distintas.
Depois que galeras4 de funkeiros negros, pobres e favelados realizaram, em 1992, um fantástico "arrastão" nas praias cariocas, repercutido em todos os grandes meios de comunicação brasileiros, a pesquisa sobre o mundo funk carioca realizada pelo antropólogo Hermano Vianna (1988) tornou-se fonte de consulta para o governo do Rio de Janeiro e aparece citada em vários autores que posteriormente escreveram sobre o assunto.5 Desde então, a dimensão da festa, a relação entre o lúdico e a violência, é uma questão recorrente nos trabalhos sobre juventude e música funk no Rio de Janeiro.
Em O mundo funk carioca (1988), Vianna lembra que seu interesse antropológico pelo funk e juventude funkeira surgiu casualmente quando, na condição de jovem da Zona Sul, simpático ao mundo do samba carioca, visitava a quadra da escola Estácio de Sá para ouvir samba e surpreendentemente se deparou com o "funk eletrônico na terra do samba". Desde então, conheceu diversos bailes, fez amizades, definiu seu lugar de "espectador" atuante entre os funkeiros e "tradutor" do mundo funk carioca. Sobre o funk suburbano, Vianna defende que o mesmo é uma festa que se basta, que não serve para nada, não faz sentido fora de si mesmo. Não gera identidade étnica ou racial, não serve para formar novas amizades, valoriza a violência como mecanismo desencadeador de euforia e êxtase, não produz um funk brasileiro comercialmente dinâmico, não reatualiza a memória coletiva popular e negra das favelas e subúrbios cariocas, não faz crítica social.
Doze anos após a publicação desta pesquisa, o funk carioca é um fenômeno de mercado. Possui personagens como os DJ's, que produzem e comandam bailes, ou personagens como "o tigrão", "as cachorras", "as preparadas", "as poposudas", sexualizados e definidores de uma ordem de relações de gêneros em que o masculino parece ser sensual e virulento, o feminino parece ser sedutor e subordinado. Domesticado pela indústria da música, propaga um discurso de paz nos bailes, exotizado, atrai a simpatia da mídia, estimula a liberação sexual de jovens de "boa família", assim como contribui para a reificação da sexualidade e o uso do corpo, como sempre fizeram funkeiros pobres e negros. Ou seja, contra as conclusões de Vianna, o funk faz sentido dentro e fora de si mesmo, serve para alguma coisa. É possível constatar isso não só hoje, mas nas próprias notas etnográficas do autor. Por exemplo, Vianna definiu um papel e construiu amizades entre os funkeiros, manipulando sua identidade de "espectador atuante e tradutor do funk"; relata que rapazes e moças funkeiros dispunham de um tempo e espaço extra-bailes, quando ensaiavam complexas coreografias, formavam turmas e selecionavam vestuário e adereços para a festa, em que o excesso de cor era um aspecto marcante; observa também como nos bailes se executavam danças quase sempre em grupo e movimentos definidos como mais apropriados para homens ou mulheres; por fim, sugere um sentido ritualístico para brigas que, embora "acontecessem por acaso", sempre aconteciam, eram esperadas e mesmo estimuladas.
Vianna usa também o fato de que quase todo o tempo se dança e o fato de que quase não se conversa nos bailes para reforçar seu argumento de que o funk não serve para nada ou que não faz sentido fora de si mesmo. Descreve, entretanto, situações onde se estabeleciam relações de reciprocidade entre os dançarinos e os DJ's, quando, por exemplo, DJ's ocasionalmente "puxavam" um refrão e obtinham respostas que, mesmo quando pareciam "puro non sense", eram vinculadas a uma narrativa que todos conheciam. Relata algo mais sobre as danças que também o contradiz:
Outra dança que sempre aparece nos momentos de maior intensidade dos bailes lembra muito o samba de roda ou a dança de jongo. Os dançarinos se dão as mãos e formam uma roda, abrindo espaço para um membro do grupo solar no centro dessa roda. O solista escolhe quem vai substituí-lo no centro. Esse é o único momento do baile em que aparece o dançarino solo, mesmo assim rodeado por um grupo de amigos, que também controla o tempo de sua dança "solitária". Uma dança que também está se tornando popular nos bailes cariocas é o "esfrega-esfrega". Só as mulheres podem participar dessa dança: pernas entrelaçadas, seios colados, várias dançarinas amontoadas nas costas "esfregando" as nádegas, o ventre e muitas vezes simulando uma relação sexual. Essa dança só aumenta a carga erótica que perpassa todo o baile, do começo ao fim. (Vianna, 1988, p. 78)
Enfim, o erotismo das danças, a subdivisão dos dançarinos por gênero, o caráter performático do evento e a interdependência entre dança e música aparecem no funk, mas têm precedentes na memória de danças e músicas afro-descendentes no Brasil. Influenciada por Vianna (1988), Fátima Cecchetto (1997) observa e enfatiza a relação entre o aspecto lúdico e o violento nos bailes funk cariocas. Entretanto, diferente deste autor, ao apontar para diferenciações de duração e distribuição espacial internas aos bailes, para hierarquias simbólicas criadas pelos próprios jovens funkeiros, identifica a formação de narrativas, identidades e laços que, apesar de fluidos e transitórios, justificam e ajudam a compreender o caráter violento dos funkeiros. Cecchetto (1997) apresenta o mundo funk do Rio de Janeiro como um universo de socialização de jovens pobres, suburbanos ou favelados, distantes do Rio de Janeiro urbanizado e sofisticado. Este mundo é marcado pela presença de rapazes cuja afirmação de identidade masculina é forjada através de um "ethos de virilidade". Deste modo, a violência no funk é uma atribuição exterior estigmatizante, mas é também um aspecto interno aos bailes, ritualístico, que aciona a produção de territórios e identidades através da constituição das galeras.
Com efeito, a adesão dos jovens às práticas das galeras do bairro ou do "pedaço" pode ser compreendida como uma afirmação da identidade grupal, que aparece associada à noção de "nós", em contraposição ao "eles", os jovens de outras galeras e de outras comunidades. É preciso ressaltar, entretanto, que essa rivalização entre nós e eles não recorta as relações entre as classes sociais; o que se estabelece são disputas intra-classe, entre os jovens de diferentes bairros populares, favelas e conjuntos habitacionais. (Cecchetto, 1997, p. 98)
Assim, onde para Vianna (op. cit.) não havia a possibilidade de formação de qualquer tipo de identidade e a festa só fazia sentido em si mesma, Cecchetto identifica "a representação simbólica de processos complexos que organizam a vida social das favelas, segundo uma lógica antagônica, territorial e guerreira" (idem, p. 114).
Na Bahia, a dimensão da festa, do lúdico e da violência reaparecem nos trabalhos de Suylan Midlej e Silva (1997) e Livio Sansone (1997). Silva, por exemplo, estudou o primeiro baile funk de Salvador, "Black Bahia", surgido em 1979, no bairro suburbano de Periperi. Segundo Silva, jovens entre 15 e 28 anos, moradores de bairros e regiões circunvizinhas, participavam todos os domingos à noite deste baile, dançando em grupos, sozinhos, circulando pelo salão ou observando a movimentação alheia. Apoiada no argumento de Vianna (op. cit.) de que a festa do funk não serve para nada e não faz sentido fora de si mesma e no argumento de Sansone (1993) de que a cultura negra juvenil aplaca o "stress racial",6 mas não é um reduto de fidelidade a sentimentos étnicos e raciais e sim o resultado da reinterpretação de símbolos negros norte-americanos globalizados, Silva segue a pista de que é o lúdico, reforçado pela ausência de violência sistemática no "Black Bahia", que define o perfil deste baile. Logo, estabelece como "objetivo central investigar o papel instituinte da comunicação mediática no processo de construção de identidade dos grupos sociais emergentes na contemporaneidade" (1997, p. 201). Defende, então, a presença de uma "etnicidade comportamental", sem o teor político-ideológico característico do movimento negro instituído que nunca teria penetrado plenamente nos bailes.
Desse modo, Silva prefere enfatizar o "contágio de euforia", a "pulsão afetiva", o "estilo" como orientadores do sentimento de pertencimento entre os participantes do "Black Bahia":
Se é possível falar de uma "dimensão étnica" na construção da identidade do funqueiro de Periperi, essa dimensão não passa, em absoluto, pela consciência, pela interiorização de uma ideologia da negritude, pela ação planejada e organizada em torno de símbolos e projetos étnicos. Ela se configuraria, antes, pela imersão num padrão comportamental compartilhado, que se materializa, fundamentalmente, através do ambiente mediático contemporâneo. (Silva, 1997, p. 211)
As notas etnográficas da autora, entretanto, parecem nos revelar mais do que isso. Primeiro, há sim uma identidade ou "condição de classe" (Bourdieu, 1998) negada pelos informantes, mas evidente. Os freqüentadores do "Black Bahia" são basicamente jovens suburbanos, pobres e "negro-mestiços" com baixo grau de escolaridade e baixa capacidade de consumo. O baile tinha hora para começar oito horas da noite e não por acaso hora para terminar em torno das onze horas da noite. Isto porque o sistema de transportes urbanos é extremamente precário em Salvador, sobretudo no subúrbio. Quem não volta para casa no último ônibus, com pouco ou nenhum dinheiro, dorme na rua ou volta à pé. As sofisticadas coreografias, os grupos de dançarinos são o resultado de horas de ensaio, quando se "curte" o funk em casa, na casa dos amigos, em outros bailes, festas ou eventos promovidos nos bairros. Silva classificou os jovens funkeiros como negro-mestiços, mas prefere não discutir porque estes mesmos jovens se classificam como "brancos, pretos, azuis, de toda cor" (1997, p. 213). Esta é uma questão importante, ao meu ver, uma vez que o "Black Bahia" ocorria em um contexto onde opera um continuum de cor que transforma cor em raça (Guimarães, 1999). Além disso, Silva esvazia a história social de manifestações culturais negras juvenis na Bahia. O caráter transnacional, a fluidez de identidades, a reatualização de símbolos africanos, a comunicação silenciosa e alternativa aos grandes meios de informação acontecem há um bom tempo na Bahia (Risério, 1981; Vianna, 1988; Cunha, 1991; Vieira Filho, 1997; Godi, 2001).
Livio Sansone (1997) levanta a questão de que versões locais de fenômenos globais como o funk relativizam o argumento de que haveria uma tendência homogeneizante e massificante de culturas juvenis a partir do centro anglo-saxão. Ou seja, teríamos contemporaneamente uma cultura juvenil globalizada, mas o consumo de música popular, a criação de identidade negra-juvenil no Brasil, ocorreria mantendo-se "uma série de aspectos tenazmente locais, determinados (por uma) história cultural, tradições musicais e contextos estruturais diferentes. Em outras palavras, a hegemonia planetária da cultura juvenil 'anglo-saxônica' não é incontestável" (Sansone, 1997, p. 221).
Desse modo, afirma Sansone, no Rio de Janeiro ou na Bahia, o funk é uma música comum, mas não caracteriza um subgrupo ou um estilo musical, concorre com vários outros estilos musicais. Pode servir para namorar, para agregar galeras ou turmas. Especificamente no Rio de Janeiro pode servir para manifestar oposição à ordem constituída e praticar violência. Na Bahia não existe ligação entre funk e narcotráfico ou prática sistemática da violência. Também na Bahia, o funk seria uma das formas de jovens pobres, "negro-mestiços", participarem da modernidade sem antagonizar a identidade factual e diferencial de baianidade. Nos dois contextos, entretanto, Sansone vê o consumo conspícuo como o meio para se alcançar a cidadania. Vê também uma ênfase na individualidade e a recusa a uma identidade negra diacrítica, nos moldes daquela elaborada pelo movimento negro.
Ao escrever sobre juventude, reggae e samba-reggae na Bahia, Antonio J.V. dos Santos Godi (2001) discorda parcialmente de Sansone (1997). Para Godi, de fato, o reggae jamaicano e o samba-reggae baiano são reconstruções locais de representações culturais juvenis originariamente anglo-saxãs. Entretanto, seguindo Paul Gilroy (1993), Godi observa que considerando o fato de que negros anglo-saxãos, jamaicanos e brasileiros compartilham o ônus de um mundo racialmente desigual e que a música se constitui como um agente estético que mantém um sentimento transnacional de pertencimento, não é exato afirmar que os países anglo-saxãos sejam o centro irradiador destas culturas juvenis. Num contexto global, a música é, para os negros, um símbolo afro-diaspórico que dispensa centro ou periferia, é um espaço de representação sem fronteiras. Logo, a despeito de aspectos etnomusicológicos locais, o reggae, o samba-reggae ou o funk poderiam ter se originado na Jamaica, no Brasil ou em terras anglo-saxãs. Em qualquer um dos casos, não por acaso, há sempre alguma referência ao símbolo África construído como locus mítico que promove um sentimento de origem, dispersão e reagregação simbólica, inclusive, no interior do mercado musical eletrônico.
Osmundo de Araujo Pinho (1998a) introduz um diferencial fundamental na reflexão sobre juventude negra e música ao enfatizar a questão do lugar como evento-território, onde são construídas identidades transitórias não essencialmente acopladas aos sujeitos, incorporadoras de historicidade, relações de força, informações globalizadas, constrangimentos raciais e de classe. No caso deste autor, a questão do lugar surgiu a propósito do estudo que fez no Centro Histórico de Salvador (Pelourinho), quando este Centro, depois de recuperado pelo Governo do Estado da Bahia, passou a abrigar diversos lugares onde jovens repartidos em termos de cor e classe ouviam música, dançavam e paqueravam. Em dois destes lugares, o "Bar Cultural" e o bar "Proibido Proibir", Pinho realizou uma etnografia comparativa.
Este autor afirma que o "Bar Cultural" era o cenário onde uma juventude universitária, branca, de classe média forjava uma identidade "alternativa" à cultura de massas popular de Salvador, ouvindo rock e pop e trocando "informações culturais". Neste bar, o ingresso pago não determinava a qualidade específica da fronteira simbólica estabelecida, mas operava uma discriminação real. No "Proibido Proibir", grande parte das atividades se desenvolvia na rua. Muitos podiam passar, dar uma olhada, parar um pouco e seguir. O controle sobre a territorialização era mínimo. A cultura espacial neste caso era permissiva e promíscua. A música tocada e dançada era o pagode.
Ainda segundo Pinho, uma personagem típica do "Bar Cultural" seria um rapaz branco, por volta dos 20 anos, de cabelos compridos nos ombros, roupas caras, brincos e tênis importado. Ia até o Pelourinho de carro. Era o "rei". Uma personagem típica do "Proibido Proibir" seria um rapaz negro, por volta dos 18 anos, de bermuda jeans com cintura baixíssima, de tênis Nike preto (provavelmente falsificado), cabelos rentes, bonés e correntes no pescoço, este rapaz era capaz de ter uma identidade real ou simulada com a violência e estava sempre pronto a sexualizar as relações pessoais. Era o "brau". Por fim, diz Pinho que:
No caso das territorializações que apresentei, a música está sendo, por um lado, entendida como um sinalizador cultural, uma senha de identidade; por outro, como um elemento ativo que participa da elaboração do mapa cultural do Pelourinho. Essa música pode ser transnacional ou hiper-local. Ao mesmo tempo que é produto de toda uma série de fatores externos ao contexto de sua audição, ela é produtora de determinadas ambiências, tanto em um sentido concreto - pensemos nas boates que existem no Pelourinho - como no sentido de produzirem uma espécie de "trilha sonora" para uma comunidade interpretativa - pensemos no Bar Cultural, onde o rock é o índice de adesão aos valores partilhados. (Pinho, 1998, p. 44)
Quanto às minhas próprias notas etnográficas na cidade de Salvador, venho observando e refletindo sobre relações sociais associadas à dança e música negra. Primeiro estudei cultura juvenil e relações raciais entre músicos da banda Timbalada, os timbaleiros (Lima, 1997). Atualmente, discuto cultura juvenil, raça e gênero através do estudo da experiência do samba (na forma pagode) na Bahia e observo pagodeiros (Lima, 2000). Em ambos os trabalhos, faço um recorte que inclui jovens dos 18 aos 25 anos de idade, mais ou menos escolarizados, bastante sexualizados e ansiosos consumidores; estes jovens não só consomem tanto quanto produzem música e danças. Através da música rearticulam um discurso sobre o mito da democracia racial, sobre a Bahia como reserva de autenticidade cultural no Brasil, mobilizam consciência racial atrelada à uma consciência corporal e conferem à música negra valor simbólico, mas também econômico (Dantas, 1994).
A dimensão racialista da música repõe, por um lado, para os jovens negros, a idéia da música percussiva como prática cultural "naturalmente" negra. Na medida em que, nos últimos trinta anos, a música projetou uma imagem estereotipada, mas positivada da Bahia, legitimou comportamentos bastante estigmatizados no passado recente, se tornou um lazer da moda, um canal de mobilização social que dispensa a escola e o trabalho formal, atraiu muito mais os jovens e reforçou a idéia de que negros têm uma "veia natural para a música". Entretanto, cresceu o número de músicos profissionais ou semiprofissionais na Bahia, poucos têm conseguido construir uma carreira sólida e menos ainda têm o controle da circulação do que produzem. Ou seja, os agentes das gravadoras, os maiores produtores de bandas e artistas, os donos dos grandes blocos carnavalescos não são estes músicos e não são jovens negros.
Por outro lado, muitos daqueles que ouvem, dançam e produzem esta música são amigos, parentes de outros músicos ou foram socializados em bairros periféricos onde muitas vezes há um terreiro de candomblé, um bloco carnavalesco, um grupo de samba onde se aprende a tocar e dançar. O terreiro, o bloco ou o grupo de samba, para além de seu caráter institucional, diversifica suas funções e significado, permitindo a jovens que pouco circulam pela cidade ¾ por escolha, falta de dinheiro ou fidelidade ao território a que pertencem ¾ o encontro, a acomodação de papéis de gênero, a construção de amizades, o aprender a tocar, a dançar, o compartilhamento de sentido para a música e as danças associadas e a elaboração de cultura juvenil.
Através de minha inserção etnográfica, distingo três grupos de locação e geracionais em que se elabora cultura juvenil: o primeiro pode ser representado pelo bloco afro-carnavalesco Ilê Aiyê, surgido em 1974, e está basicamente orientado pelo discurso da marca negra, ou seja, pela valorização da fenotipia mais negróide, pela idéia de África como ideologia e mito (Cunha, 1986). Este bloco forma músicos que tocam na banda Aiyê; o segundo pode ser representado pelo Grupo Cultural Olodum, surgido em 1979, e está basicamente orientado pelo discurso da origem negra, ou seja, pelo comprometimento político com a afirmação étnica e racial dos negros, o que significa relativizar a realidade fenotípica da negritude e propor uma redefinição da nação brasileira a partir deste lugar. Este bloco também forma músicos que tocam na banda do Olodum; o terceiro pode ser representado pela banda Timbalada, surgida em 1992, e está basicamente orientado pela conexão das noções de pessoa e indivíduo, ou seja, quando se mitifica a força de laços comunitários, a autoridade dos antigos transmissores de conhecimento, mas se evita a essencialização de identidades e a crítica racial apostando em respostas geradas por indivíduos emocionalmente autônomos e capazes de escolher de forma independente o seu destino num mercado musical globalizado, rentável para poucos e reificador da personalidade negra como plena de estímulos primitivos. Esta banda vem formando músicos que fazem muitos shows, viajam bastante, gravam discos e tocam no bloco carnavalesco, como o mesmo nome da banda, posterior ao surgimento da Timbalada.
Seguindo Sirinelli (1996), diria que estes grupos geracionais se auto-representaram e foram proclamados como tais pela mídia, por pesquisadores e um em relação ao outro; manipulam sentidos que não foram forjados no período que separa os dois limites da faixa etária que arbitrei acima; são objeto de, mas também têm forjado estruturas socioeconômicas. São formados por informantes que transitam de um grupo geracional a outro, às vezes, tocando de graça na banda Aiyê, do Ilê Aiyê, na banda do Olodum ou na Timbalada. Outras vezes como músicos remunerados, o que permite agregar à idéia de juventude negra não apenas valor simbólico (ser baiano, ser da banda do Ilê Aiyê, do Olodum, da Timbalada), mas material também (tênis importados, celulares, roupas coloridas e caras, colares, mulheres brancas). Para este tipo de trânsito, é fundamental ser um homem heterossexual e saber usar o próprio corpo como linguagem, mecanismo de assimilação, sedução do outro e, muito importante, como mercadoria.
Neste caso, acredito que pouco importa ou pouco interessa aos jovens negros elaborar e compartilhar uma idéia de juventude em relação ao que falta para a plena integração na sociedade civil organizada e em suas estruturas sociais hegemônicas. Ou seja, o trabalho, a escola, a recusa da violência e do crime são projetos alheios e só parcialmente assimilados. É mais eficaz, neste caso, elaborar e compartilhar uma idéia de juventude que ao invés de articulada em torno da falta de sentido, se articula em torno de sentidos nativos que aparecem como excessos etnográficos. Ou seja, é o corpo negro representado como tal na música que importa e muito interessa. É este corpo que, ao tocar e dançar, articula uma linguagem, põe e repõe estes jovens sujeitos em grupos de locação e geracionais relativos e reflexivos.
Em outras palavras, quero dizer que se a música para os negros em geral e para a juventude negra em particular, através de mimetismo, uso dialógico do corpo, reatualização de memória oral, promove conexões virtuais e alternativas com tradicionais territórios negros, com culturas negras várias, aponta para um pertencimento juvenil afro-diaspórico, remete também a um mundo juvenil negro perverso e racializado desde um longínquo estado. Funkeiros, timbaleiros e pagodeiros, enquanto jovens, são, no meio musical racializado, objeto de uma ideologia do erótico. Esta ideologia permite a busca no corpo do prazer sexual, a expansão da construção do desejo para além do que é visto como pecado e luxúria, a construção de uma cultura juvenil irreverente e sedutora. Entretanto, atrelada a estruturas de poder do gênero e da raça, legitima o corpo negro como mercadoria, torna-o um bem alternativo à ordem sexual para aqueles que podem pagar pela transgressão das proibições. O timbaleiro sensual, autoconsciente e assimilacionista, o pagodeiro "mal", "safado", "sexualmente potente", o funkeiro sensual e racialmente difuso, "num equilíbrio impossível", se tornam uma juventude que carrega a Bahia em suas cabeças (Moura, 1996), mas também em suas genitálias.
Notas
1. Guimarães (1999) se refere a "racialismo" ou racialização quando observa a crença de que determinados atributos morais, mentais, intelectuais, afetivos ou posições sociais são correspondidos a uma essência biológica racial. Na medida em que esta essência é sempre determinada pela cultura, é construída historicamente, atitudes, pensamento, idéias ou relações sociais racializadas se referem não a um sistema de causação, não a qualquer realidade biológica das raças, mas a ações subjetivamente intencionadas, hierarquizantes.
2. Sobre a idéia de "música", absorvo o ponto de vista de John Blacking (1992). Para este autor, "música" é tanto o produto de uma ação humana observável e intencional quanto um modo humano básico de pensamento através do qual uma ação humana pode ser constituída. A fonte mais acessível de informação sobre a natureza da "música", diz Blacking, pode ser, primeiro, a variedade de sistemas musicais, estilos ou gêneros que são correntemente performados no mundo. Segundo, registros históricos, iconografia e descrição de performances. Terceiro, as diferentes percepções que as pessoas têm da música e da experiência musical, ou seja, os diferentes modos através dos quais as pessoas dão sentido aos símbolos musicais. Este sentido só pode existir compartilhadamente.
3. Michel De Certeau (1989) aponta o papel e o poder da escrita etnográfica em pôr os objetos e identidades em seu devido lugar, fazendo história daquilo que se esvanece num corte cultural de alteridade, na oralidade, na inconsciência, na espacialidade ou quadro sincrônico de sistemas sociais sem história. Neste caso, De Certeau opõe a escrita, "que invade o espaço e capitaliza o tempo", à palavra, "que não vai longe e que não retém". Dito de outra maneira, se "a escrita isola o significante da presença, a palavra é o corpo que significa, enunciado que não se separa do ato social de enunciação nem de uma presença que se dá, se gasta ou se perde na nominação" (De Certeau, 1989, p. 217). Neste procedimento, a escrita produz um "resto", um excesso etnográfico ouvido, visto, mas não compreendido, que não se escreve, mas também define aquele etnografado.
4. Alba Zaluar (1997) observa que se começou a falar em galeras, em francês galères, na década de 1970, em cidades francesas e particularmente em Paris. Naquele contexto, o problema das galeras estava associado à questão nacional e étnica e em menor grau de classe. As galeras eram marcadas pela presença de jovens imigrantes árabes, caracterizados pelo sentimento comum de exclusão social, pela falta de organização interna, pelo descompromisso com o mundo do crime e falta de objetivos políticos claros. Se tratavam de jovens "à deriva", "niilistas" e "autodestrutivos. No Brasil, afirma ainda Zaluar, as galeras cariocas não evidenciam questões nacionais ou étnicas, mas, como na França, são organizações sem chefia instituída, sem regras explicitadas ou rituais iniciáticos, descompromissadas com o mundo organizado do crime. Possuem uma estreita relação com os bairros de origem, com o espírito de festa e rivalidade dos bailes funk.
5. A propósito, em 1997, quando então trabalhava como pesquisador do Projeto s.a.m.ba (Sócio-Antropologia da Música na Bahia) da ufba, organizamos um ciclo de seminários do qual participou o antropólogo Hermano Vianna. Naquela ocasião, o mesmo nos falou sobre o susto e incômodo que o tomou ao ser transformado pela mídia e governo cariocas em intérprete de um grande "arrastão", ocorrido no verão de 1992, quando então galeras de funkeiros saíram pelas praias cariocas "arrastando" pessoas e coisas, "agredindo", "assustando" e "roubando" banhistas. Em todo caso, as relações do autor com a mídia antecede o grande arrastão de 1992. O próprio autor conta na introdução do livro O mundo funk carioca (1988) que foi o primeiro, depois do fenômeno Black Rio, em 1976, a escrever na imprensa carioca sobre as festas de jovens suburbanos agora embalados pelo hip hop. Já naquela ocasião, 1987, o autor confessa que seu artigo reavivou na imprensa carioca o caráter "exótico, selvagem e desconhecido", normalmente atribuído aos suburbanos.
6. A primeira vez que ouvi a expressão "stress racial", a mesma foi enunciada pela Profª Drª Maria Inês da Silva Barbosa, da ufmt, em 1999, no 2º Curso Avançado sobre Relações Raciais e Cultura Negra, promovido pelo Centro de Estudos Afro-Asiáticos. Como se tratou de uma enunciação oral, desde então, me reapropriei da expressão e a uso quando pretendo me referir a aspectos das relações raciais no Brasil que constrangem pela linguagem, pela troca de afetos, pelo contato sexualizado e assimétrico entre brancos e negros, a rejeição e crítica ao racismo brasileiro.
FUNKEIROS, TIMBALEIROS E PAGODEIROS: NOTICE ABOUT YOUTH AND THE BLACK MUSIC OF SALVADOR CITY
ABSTRACT: In this article, I intend to discuss how, in the racialized context of the association between black youth and music, experiences arise and develop as identity marks, social criticism and the ratification of racial, class and gender hierarchies. To do so, I work with the idea of youth and generation as not only a biological, but also a social and historical data, and with the idea of music as a shared sense. Besides, I discuss my own ethnographical observations as well as those of other authors who reflected on the relationship between music and black youth and have basically observed, in various contexts, young, poor, partly Negro suburbanites with low schooling, some having a low buying power, others being anxious consumers. I conclude pinpointing the importance of music as a configuration instrument for a youthful and black Diaspora experience, but also as an instrument that renews old dissimilarities that are not genetic.
Key words: Youth. Black Culture. Bahia. Africa.
Referências Bibliográficas
AMORIM, L.S. Cenas de uma revolta urbana: movimento hip hop na periferia de Brasília. 1997. 114f. Dissertação (Mestrado) Departamento de Antropologia, Universidade de Brasília, Brasília, DF.
BLACKING, J. Music, culture and experience. In: Byron, R. Music, culture and experience; selected papers of John Blacking. Chicago: University of Chicago, 1992. p. 223-242.
BOURDIEU, P. Condição de classe e posição de classe. In: Bourdieu, P. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 1998. p. 3-25.
CASTRO, N.A.; BARRETO, V.S. (Org.). Trabalho e desigualdades raciais: negros e brancos no mercado de trabalho em Salvador. São Paulo: Annablume, 1998.
CECCHETTO, F. As galeras funk cariocas: entre o lúdico e o violento. In: Vianna, H. (Org.). Galeras cariocas: territórios de conflitos e encontros culturais. Rio de Janeiro: ufrj, 1997. p. 95-118.
CERTEAU, M. Etnografia: a oralidade ou o espaço do outro: Léry. In: Certeau, M. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1989. p. 211-242.
CUNHA, M.C. Etnicidade: da cultura residual mas irredutível. In: Cunha, M.C. Antropologia do Brasil. São Paulo: Brasiliense; edusp, 1986. p. 97-108.
CUNHA, O.M.G. Corações Rastafari: lazer, política e religião em Salvador. 199l. 334f. Dissertação (Mestrado) - Programa de pós-graduação em Antropologia Social, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro.
DANTAS, M. Olodum: de bloco afro a holding cultural. Salvador: Grupo Cultural Olodum/Casa de Jorge Amado, 1994.
DURHAM, E.R. A pesquisa antropológica com populações urbanas: problemas e perspectivas. In: Cardoso, Ruth (Org.). A aventura antropológica: teoria e pesquisa. São Paulo: Paz & Terra, 1997. p. 17-37.
FÉLIX, J.B.J. Chic show e Zimbabwe e a construção da identidade nos bailes black paulistanos. 2000. 210f. Dissertação (Mestrado) Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo.
FORACCHI, M.M. A juventude na sociedade brasileira. São Paulo: Pioneira; edusp, 1972.
GILROY, P. The black Atlantic: modernity and bouble consciousness. Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1993.
GODI, A.J.V.S. Reggae and samba-reggae in Bahia: a case of long-distance belonging. In: Perrone, C.A.; Dunn, C. (Ed.). Brazilian popular music and globalization. Gainesville: University Press of Florida, 2001. p. 207-219.
GUIMARÃES, A.S.A. Racismo e anti-racismo no Brasil. São Paulo: Editora 34, 1999.
HERSCHMANN, M. (Org.). Abalando os anos 90 funk e hip-hop: globalização, violência e estilo cultural. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
LIMA, A. O fenômeno timbalada: cultura musical afro-pop e juventude baiana negro-mestiça. In: Sansone, L.; Santos, J.T. (Org.). Ritmos em trânsito: sócio-antropologia da música baiana. São Paulo: Dynamis; Salvador: Programa A cor da Bahia e Projeto s.a.m.b.a, 1997. p. 161-180.
LIMA, A. O samba que não é carioca nem baiano. Interseções Revista de Estudos Interdisciplinares, Rio de Janeiro, v.2, n. 1, p. 65-84, 2000.
MOURA, M. Produtora, mercadora, mercadoria: uma cidade para o carnaval? In: Fischer, T. (Org.). O carnaval baiano: negócios e oportunidades. Brasília, DF: sebrae, 1996. p. 59-71.
PINHO, O.A. Alternativos e pagodeiros: notas etnográficas sobre territorialidade e relações raciais no Centro Histórico de Salvador. Estudos Afro-Asiáticos, Rio de Janeiro, n. 34, p. 35-48, dez. 1998.
PINHO, O.A A Bahia no fundamental: notas para uma interpretação do discurso ideológico da baianidade. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v.13, n. 36, p. 109-120, 1998.
QUEIROZ, D.M. Desigualdades raciais no ensino superior: a cor na ufba. In: Queiroz, D.M. Educação, racismo e anti-racismo. Salvador: Novos Toques, 2000.
RISÉRIO, A. Carnaval Ijexá. Salvador: Corrupio, 1981.
SANSONE, L. Pai preto, filho negro: trabalho, cor e diferenças de geração. Estudos Afro-Asiáticos, Rio de Janeiro, n. 29, p. 65-84, 1993.
SANSONE, L. Funk baiano: uma versão local de um fenômeno global? In: Sansone, L. ; Santos, J.T. (Org.). Ritmos em trânsito: sócio-antropologia da música baiana. São Paulo: Dynamis; Salvador: Programa A cor da Bahia e Projeto s.a.m.b.a, 1997. p. 219-240.
SANSONE, L.; SANTOS, J.T. (Org.). Ritmos em trânsito: sócio-antropologia da música baiana. São Paulo: Dynamis; Salvador: Programa A cor da Bahia e Projeto s.a.m.b.a, 1997.
SILVA, C.B.R. Da terra das primaveras à ilha do amor: reggae, lazer e identidade cultural. São Luís: edufma, 1995.
SILVA, S.M. O lúdico e o étnico no funk do "Black Bahia". In: Sansone, L.; Santos, J.T. (Org.). Ritmos em trânsito: sócio-antropologia da música baiana. São Paulo: Dynamis; Salvador: Programa cor da Bahia e Projeto s.a.m.b.a, 1997. p. 201-217.
SIRINELLI, J.F. A geração. In: Ferreira, M.M.; Amado, J. (Org.). Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: FGV, 1996. p. 131-137.
VIANNA, H. O mundo funk carioca. Rio de Janeiro: Zahar, 1988.
VIANNA, H. (Org.). Galeras cariocas: territórios de conflitos e encontros culturais. Rio de Janeiro: ufrj, 1997.
VIEIRA FILHO, R.R. Folguedos negros no carnaval de Salvador (1880-1930). In: Sansone, L.; Santos, J.T. (Org.). Ritmos em trânsito: sócio-antropologia da música baiana. São Paulo: Dynamis; Salvador: Programa A cor da Bahia e Projeto s.a.m.b.a, 1997. p. 39-57.
ZALUAR, A. Gangues, galeras e quadrilhas: globalização, juventude e violência. In: Vianna, H. (Org.). Galeras cariocas: territórios de conflitos e encontros culturais. Rio de Janeiro: ufrj, 1997. p. 17-58.
* Como autor, assumo a responsabilidade por todos os pontos de vista e idéias apresentados neste artigo. Estou certo, entretanto, que o amadurecimento dos mesmos são resultado da interlocução com informantes e com colegas que discutem temáticas próximas a que apresento. Neste sentido, agradeço a todos aqueles que, anonimamente, contribuíram para a realização deste artigo e especialmente a Osmundo Pinho, pelas críticas e comentários.
** Professor substituto do Departamento de Antropologia da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e doutorando em Antropologia Social na Universidade de Brasília (UnB). E-mail: ari66@ig.com.br
21:38 | Marcadores: Funk, funk brasil, FUNKEIROS, PAGODEIROS, TIMBALEIROS | 0 Comments
Como Surgiu o Funk?
Essa vertente da música negra americana surgiu na década de 1930, com artistas como James Brown e Melvin Parker. Com Funky Butt (I Got You Some), de 1932, o adjetivo funk, até então usado para coisas sexy, passou a classificar o estilo musical. Mas não confunda: o funk carioca é inspirado no miami bass, um tipo de hip-hop que ficou famoso nos EUA na década de 1980.
14:26 | Marcadores: Funk, James Brown, Melvin Parker, Música | 1 Comments
Sem Ronaldo, funk "sai de moda" na concentração da seleção
O funk carioca e o hip hop não fazem mais parte da trilha sonora da Granja Comary. Com o atacante Ronaldo longe de Teresópolis, o ritmo que anima os atletas durante os treinos na academia e no vestiário é mais tradicional. O pagode toca o tempo todo na concentração.
"Um sambinha sempre anima ainda mais o ambiente. O clima fica mais alegre. Adoro", disse o carioca Vágner Love, um dos atletas que comandam o som na seleção.
Sucessos de Jorge Aragão e Fundo de Quintal são as músicas preferidas dos jogadores na Granja nos últimos dias. Ronaldinho e Robinho são os outros atletas que cuidam da nova trilha sonora.
O trio é fã confesso de pagodeiros. No mês passado, eles fecharam uma boate logo após a goleada contra o Equador, por 5 a 0, no Maracanã, para comemorar a vitória em ritmo de samba.
A festa contou com a participação de vários pagodeiros e virou a noite. Integrantes de Exaltasamba, Fundo de Quintal, Kiloucura e Os Morenos participaram da celebração. O sambista Dudu Nobre também cantou.
O cantor pop Latino esteve nos festejos, entretanto não subiu ao palco. A celebração só terminou por volta das 10h do dia seguinte. Os atletas pagaram R$ 20 mil para fechar a boate The Cat Walk, que tinha como um de seus sócios o empresário iraniano Jafar Hajebrahim. Ele foi preso pela Interpol e havia sido condenado na Inglaterra a 14 anos de prisão, por tráfico de cocaína.
A mudança na trilha sonora da seleção se deve à longa ausência de Ronaldo no grupo. Até o Mundial de 2006, o hip hop e o funk dominavam as caixas de som da Granja Comary. Chamado de "presidente" pelos mais jovens, o jogador do Milan era o "DJ oficial" em Teresópolis.
Ele sempre se exercitava ouvindo estes ritmos e gostava de dançar nos intervalos. O veterano atacante chegava até a ensinar passos de danças aos companheiros.
16:36 | Marcadores: Ouvir Musicas de Funk, Ronaldo, Sai de Moda, sem | 4 Comments
Dançando Funk Letra Cidade de Deus
O livro "Lendo Música", da Publifolha, traz diversos ensaios que interpretam e comentam canções populares brasileiras, abordando desde o samba-exaltação na era do getulismo ("Aquarela do Brasil", de Ary Barroso) até às novas misturas eletroacústicas de Marcelo D2 ("Em Busca da Batida Perfeita").
Um dos ensaios publicados é sobre o sucesso do funk carioca "Cidade de Deus", de Cidinho e Doca. O texto questiona se os leitores já teriam ouvido esta música e ressalta que esta canção é justamente destinada a quem nunca ouviu este estilo musical ou pôs os pés em uma favela.
O ensaio é de autoria do antropólogo Hermano Vianna, autor de "O Mundo Funk Carioca" (Jorge Zahar, 1988) e "O Mistério do Samba" (Jorge Zahar/EditoraUFRJ, 1995). Vianna também é redator-final do programa Central da Periferia (TV Globo) e coordenador do site Overmundo.
O autor ainda traz um pouco da história do funk no Brasil, que até 1989 era uma cópia da fórmula inventada pelo Miami Bass, estilo bem eletrônico que o hip hop adquiriu quando chegou na Flórida, Estados Unidos. O livro também conta que o primeiro sucesso de funk, produzido no Rio e cantado em português, foi "Melô da Mulher Feia" (lançado no LP Funk Brasil, em 1989).
Leia abaixo um trecho do ensaio sobre "Cidade de Deus".
C-I-D-A-D-E-D-E-D-E-U-S
"C-I-D-A-D-E-D-E-D-E-U-S" começa com o refrão, repetido inúmeras vezes no decorrer da canção, como que para marcar/ martelar sua mensagem no ouvido do tal doutor. O refrão já é internamente repetitivo, cantando duas vezes os mesmos versos(que são acompanhados pelo tamborzão, o que cria um ambiente sonoro mais carnavalesco do que nas outras partes da música): "C I D A D E D E D E U S [cantado soletrando]/ e vê se não esquece de Deus/ Cidade de Deus [sem soletrar] / C I D A D E D E D E U S [soletrando novamente]/ e vê se não esquece".
Depois do refrão, os cantores descrevem a imagem de quem mora na Cidade de Deus segundo o "doutor", o sangue bom, a mídia ou quem não mora por lá, mas já apresentando suas respostas para as acusações e, em troca, acusando a discriminação de ser uma forma de violência: "dizem que nós somos violentos/ mas desse jeito eu não agüento/ dizem que lá falta educação/ mas nós não somos burros não/ dizem que não temos competência/ mas isso sim que é violência".
E emenda com uma crítica feita ao funk: "que só sabemos fazer refrão". No próximo verso o discurso muda de tom, e a auto-imagem raivosa e resoluta (mas de alguma maneira e em alguns momentos submissa, pois é dirigida a quem socialmente tem o poder para decidir os destinos da favela) ganha destaque a partir de um "se liga sangue bom" (que significa: "preste atenção, meu ouvinte de fora" - ouvinte interpelado como "sangue-bom", que pode ser também sinônimo de "gente boa", mas aqui nitidamente de classe social superior).
Cidinho e Doca dizem então como é na realidade a CDD, e dão ordens para o destinatário da mensagem: "nós temos escola/ nós temos respeito/ se quer falar de nós, vê se fala direito". É então que reaparece o doutor, numa declaração de obediência à ordem vigente, em que a falta de "documentos" (sobretudo a carteirade trabalho) é usada pela polícia como desculpa para prisões arbitrárias dos pobres: "estou documentado, doutor/ cidadão brasileiro, e tenho o meu valor".
Quase toda a letra parece ser enunciada em nome de um coletivo (todos os moradores da CDD, ou de todos os funkeiros da CDD), mas em determinados momentos fica bem pessoal, como se fosse uma autobiografia: "é/ meu pai é pedreiro/ mamãe costureira/ e eu cantando rap pra massa funkeira" (repare bem: ele "canta" rap, não diz ou recita um rap). No próximo verso, volta o coletivo, como se não houvesse fronteira entre o eu e a comunidade: "o ritmo é quente, é alucinante / êta povo valente, êta povo gigante".
Volta o refrão e logo após, o "doutor" vai ser tratado com a intimidade do pronome "tu" conjugado em modo popular, comum em todas as periferias brasileiras: "mas se tu não sabe, eu te conto/ mas eu não sei se tu está pronto/ nem tudo que falam é verdade/ queremos paz, justiça, liberdade/ quando tiver um tempo sobrando/ se liga no que estou falando/ vai lá conhecer minha cidade". Está feito o convite, e é um convite bem realista. Cidinho e Doca não vão maquiar sua cidade para receber os convidados - eles prometem alegria e sofrimento, mas sem esconder o orgulho de morar em meio a esses contrastes: "tu vai se amarrar, vai se divertir/ depois que tu entrar não vai querer sair/ vai ver alegria, vai ver sofrimento/ não escondemos nada que temos lá dentro/ porque a comunidade tem fé".
16:19 | Marcadores: Cidade de Deus, Dançando Funk, Funk Letra, Letras de Funk | 0 Comments
Fé no funk
Sabrina tem 18 anos, mas já é mãe de família: casada, tem um filhinho de 4 meses. A menina sonha se dar bem no funk para ajudar a família e até hoje se aconselha com o pastor.Com o sorriso sempre do tamanho de sua simpatia, MC Sabrina faz sucesso e ganha espaço no movimento funk com canções que falam de amor. Aos 18 anos, a cantora, que já tem dois de carreira, hoje se divide como artista, mãe e donade-casa, e conta como começou na vida artística. “Eu fazia solos na igreja que freqüento. Mas um dia o DJ Júnior, que é meu primo, me convenceu a fazer um teste com uma versão de Sorte Grande, da Ivete Sangalo”, lembra a cantora, que hoje ainda se aconselha com o pastor de sua igreja.
Fã de Michael Jackson – de quem arrisca copiar alguns passos –, Mariah Carey, Beyoncé e de vários cantores evangélicos, Sabrina começou cantando músicas que falavam sobre a vida nas favelas, mas já direcionou sua carreira para canções mais românticas. “É o que curto cantar. E o mais legal é que até quem vai ao baile brigar acaba cantando junto e entrando no clima”, conta.
“Até quem vai ao baile pra brigar acaba entrando no clima das minhas músicas”
Sempre acompanhada pelo DJ Júnior, que compõe suas músicas e faz as montagens, a MC fez fama com Eu Solto a Minha Voz, mas Bondinho também está na boca da galera. Sabrina ainda participou de uma faixa do novo CD de um de seus ídolos, Buchecha. “A música se chama Implacável e fala de um cara que se arrependeu de não ter ficado com a menina. Foi o máximo gravar com ele”.
Entre os amigos famosos, MC Sabrina sempre divide palco com MC Frank, Mascote e Duda do Borel. Recentemente, se apresentou num clube em Santos, em São Paulo, e agitou a galera do litoral paulista. “Fiquei muito feliz de ver o pessoal sabendo cantar as músicas, participando mesmo”, conta.
Com todo apoio da família para seguir carreira, Sabrina sempre tem a companhia de Claudinho, seu marido, nos shows. “Deixou o meu filho Kauã, de quatro meses, com a minha mãe e vou trabalhar”, diz a cantora, que tem planos de ajudar toda a família. "Espero o mais breve possível poder comprar uma casa para minha mãe." A MC promete.
18:20 | Marcadores: fé, funk do jeremias, musicas funk, www | 0 Comments
Revista Americana se assusta com Funk Carioca
Em entrevista recente, o historiador americano e brasilianista Thomas Skidmore afirmou que o Brasil não precisa mais de pensadores estrangeiros para explicá-lo. Talvez o momento seja propício ao movimento contrário: atualmente, os estrangeiros se beneficiariam bastante se procurassem separar o que é fato do que é mitificação na vida da Belíndia. Pelo menos, essa é a impressão deixada pelas sete páginas sobre bailes funk escritas pelo jornalista Kevin Heldman (em reportagem entitulada Nuthin' but a favela thing, ou seja, "Nada além de uma coisa da favela") para a edição de janeiro da revista americana Spin, que acaba de chegar às bancas.
Por algum motivo, o repórter visitou o Rio e só o que conseguiu ver foi violência. Ignorou solenemente a existência de bailes funk "normais", e, a bem da verdade, só foi a um clube, alegadamente em Nova Iguaçu. Na sua reportagem, sai da boca do DJ Marlboro, respeitado pioneiro dos bailes, a seguinte frase: "Ouvi dizer que uma vez, um dos produtores subiu ao palco e gritou: 'o primeiro que me trouxer o dente de um alemão (inimigo) leva este CD!'"
Da mesma forma, ao relatar as complicações com a justiça do produtor da Furacão 2000, Rômulo Costa (que foi encontrado pela polícia e preso na semana passada), o americano reproduz as acusações de tráfico de drogas e apologia ao crime enfrentadas pelo, segundo a matéria, "auto-intitulado padrinho preto do funk" ("the black godfather of funk"). Este, por sua vez, responde às acusações dizendo que os que o perseguem são "bichas" e "putas" ("faggots" and "bitches") querendo aparecer às suas custas. Mas cadê o funk?
Kevin colou num rapaz que é ex-chefe de galera (grupo de funkeiros que baila e briga unido), indo com ele ao baile e à favela e tendo um pouco da visão "das internas": pobreza, racismo e violência, é claro. Testemunhou o chamado Corredor da Morte - área que divide a pista de dança ao meio, onde quem cair apanha -, a dança da bundinha e o (ab)uso de álcool, maconha e cocaína. Aparentemente, ele não foi informado que, até aí, pouca diferença para danceterias da classe média da Zona Sul carioca, que não têm Corredor, mas têm brigas de pitboys e lutadores de jiu-jitsu, fartamente relatadas nos jornais - ou seja, a razão para a violência explodir no que deveria ser divertimento está longe de ser apenas socioeconômica.
Tapando o sol com a peneira
Ao tentar penetrar na vida da favela, escolhendo um personagem e seguindo seus passos, o repórter foi acachapado pela visão da agressividade, e o seu deslumbramento, infelizmente, impediu que a música fosse analisada. Ela é apenas levemente mencionada na explicação de que aquele funk vem do Miami Bass dos anos 80 - e é só. A impressão que fica, ao final das sete páginas, é a de que a música é coadjuvante nos bailes - há poucas especulações sobre o que dizem ou fazem os MCs que comandam as galeras.
É verdade que as letras são cruas, falam de inimigos e batalhas imaginárias entre grupos de bairros diferentes e de sexo sem romance. As músicas têm arranjos pobres e são mal produzidas, porém extremamente eficazes para enervar quem as escuta desavisadamente. O pouco de melodia que existe, usualmente nos vocais, é repetido como ladainhas, sem variar jamais. O batidão também não muda, e teclados quase de brinquedo completam o "arranjo" com sons agudos, preferencialmente metálicos. Mas há - e isso não é relatado na reportagem - quem trabalhe conscientemente sobre o estilo funk do Rio, incluindo percussão e sampler, letras espertas, embora esse ainda não seja o seu formato mais comum. Um exemplo do bom uso da estrutura deste tipo de canção é a premiada (e cada vez mais popular) faixa Us Mano As Mina, presente no disco Seja Como For, do rapper paulistano Xis.
Outras incongruências chamam a atenção na matéria da Spin: o repórter se encontrou com alguns rapazes numa tarde em dia de semana, e os garotos resolveram dar uma amostra de briga de baile ali mesmo. A foto está estampada na revista, como se documentasse a realidade. Realidade mesmo? Está para nascer o brasileiro que não se empolgue com uma câmera apontada em sua direção.
18:09 | Marcadores: Carioca, musica de funk, revista | 2 Comments
O funk e a juventude pobre carioca.
É sempre assim: quando alguma manifestação cultural criada pela juventude pobre rompe as barreiras sociogeográficas e passa a aparecer com destaque em meios de comunicação, a primeira reação é de alarme, choque e desconfiança. Assim aconteceu com o punk paulistano no final da década de 70, assim também foi recebido o rap da periferia de São Paulo ali pelo meio da década de 80 e não é de se espantar que tenha voltado a ocorrer no final de 2000 com o funk carioca. Seus músicos e compositores vêm dos morros e favelas do Rio de Janeiro, seu público – que nas letras é caracterizado como composto por popozudas, tigrões, tchutchucas – é original também. Enquanto as músicas com batida monocórdica e refrões repetitivos ("tá dominado/tá tudo dominado") saíam de quase todas as rádios, TVs e barraquinhas de CDs piratas espalhadas pelas cidades brasileiras, uma onda de horror moralista seguiu-se à invasão do funk.
De um lado, apontava-se (no passado, porque afinal, já nem se fala tanto assim de funk carioca) a "má qualidade" das músicas e letras. Vejamos um exemplo em texto publicado na Folha de S. Paulo que sintetiza um tipo de proposição que se tornou bastante comum sobre o funk carioca e, de certa forma, é extensível para outros fenômenos culturais criados por jovens de classes populares: "Sociologicamente, o movimento do funk carioca tem lá sua validade. ((…) Musicalmente, esse estilo nada mais é do que um monumento à repetição. Das batidas ao chauvinismo das letras, os freqüentadores de bailes da equipe Furacão 2000 não ouvem nada de novo há décadas". Em vez de relativizar, como aparentemente é a intenção do autor, o paternalismo e a condescendência contidos no "sociologicamente válido" evidenciam, na verdade, um enorme desinteresse, o que se confirma pela associação óbvia que o autor faz entre uma descrição, digamos, objetiva sobre as condições em que é produzido o funk carioca e os adjetivos que usa a seguir para (des)qualificá-la: "Como, em sua origem, esse tipo de música era produzida por rapazes pobres com uma bateria eletrônica (rudimentar) na mão e um arsenal reduzido de idéias na cabeça, a criatividade foi a primeira vítima na gênese do funk carioca" (grifos meus)1. É de se perguntar qual é de fato a vítima neste caso: será que é o que o autor chama de criatividade? Ou as vítimas reais são esses tais "rapazes pobres" aos quais o jornalista se refere e aos quais se concede serem capazes de produzir fenômenos sociologicamente válidos (o que quer que isso signifique), mas cujas realizações estéticas levariam a priori a marca da precariedade? Ainda, o que é exatamente esse tal de "novo", sem o qual seria impossível a criatividade?
Aos muxoxos dos moralistas estéticos juntaram-se as exclamações da patrulha dos costumes. "Denúncias" escabrosas que davam conta de "orgias" e sexo desregrado nos bailes funk apareceram na imprensa e várias autoridades apressaram-se em tecer considerações alarmadas2. As tais denúncias versavam sobre menores fazendo sexo, sexo sem proteção, gravidez precoce, nada muito diferente do que acontece todos os dias em outros grupos juvenis e não apenas entre as classes populares. Ao mesmo tempo que os meios de comunicação abriam espaço para que os dedos da moralidade apontassem o escândalo, a mesma mídia estava explorando o sensacionalismo sexual que se criou em torno do funk, inventando novos objetos de babação masculina como a "Enfermeira do Funk" e exibindo meninas em trajes sumários executando coreografias explicitamente sexualizadas. Novamente, nenhuma novidade – antes das garotas do funk, tivemos as bundas do Tchan e as mascaradas de Luciano Huck. A única diferença, na verdade, foi a magra vitória feminista que o Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo conseguiu quando, preocupado com o aumento de casos de assédio sexual e com a erotização da imagem das enfermeiras profissionais, anunciou que ia entrar com uma ação contra o empresário Alexandre Frota e assim impediu que a "Enfermeira do Funk" fosse exibida em capas de revista e na televisão (o empresário, entretanto, não perdeu tempo e transformou a "Enfermeira" em a "Proibida do Funk" e também lançou uma nova personagem, a "Ninja").
Se o alarido é por conta do que se chama de "má qualidade" de música e letra ou por conta do moralismo hipócrita, tanto faz. O fato é que, antes mesmo de se entender o funk carioca, ele foi combatido, rotulado e (agora no meio de 2000) já jogado para escanteio. O que não significa que ele tenha desaparecido e nem que não seja interessante e importante tentar entender alguns dos aspectos envolvidos em sua origem e seu impacto na cultura brasileira.
Um pouco de genealogia
O que é, afinal, o funk carioca e o que ele fez para merecer tanta maledicência? Para começo de conversa, carioca é, mas não é exatamente funk. Foi porque nasceu nos bailes funk das favelas e subúrbios do Rio de Janeiro que esse estilo acabou, por extensão, adotando o nome de funk. Há parentesco com funk, termo que denomina as "variações anárquicas e polirrítmicas da música soul"3 e define um estilo musical com forte marcação rítmica (groove) de baixo e bateria, uma vez que o funk é, digamos, também matriz do miami bass, música de base eletrônica com sonoridades graves sobre a qual grava-se o vocal, geralmente de letras com referência à diversão e sexo e principal influência do funk carioca. Indo mais para trás na genealogia4, uma vez que o miami bass é uma derivação do eletrofunk, do qual também saiu o primeiro rap nova-iorquino (Afrika Bambaataa, Grandmaster Flash), pode-se dizer que o funk carioca, portanto, é uma espécie de primo debochado e desaforado do rap de grupos como os Racionais MCC’s. Nessa salada toda de termos, o importante é reter que todos esses gêneros citados – rap, electrofunk, miami bass – são musicalmente minimalistas por excelência e baseiam-se em batidas eletrônicas pré-gravadas ou sampleadas.
Já os bailes funk têm raízes mais fundas na paisagem cultural do Rio de Janeiro5. Surgidos nos anos 60, os primeiros bailes exclusivamente de som mecânico eram promovidos pelo lendário DJ Big Boy, realizados no Canecão, na Zona Sul do Rio de Janeiro, e tocavam rock e soul. Nos anos 70, quando os bailes passaram a ser levados também para os subúrbios, ocorreu uma separação socioétnica-musical: os bailes do subúrbio especializaram-se em ritmos negros (funk, soul) e tornaram-se bailes black, os da Zona Sul continuavam tocando rock. Nesse caldo de cultura foi que nasceu o Black Rio, um dos primeiros movimentos de afirmação cultural da juventude negra, que não só deu origem à importante Banda Black Rio (cujo suíngue funk foi "descoberto" por Gilberto Gil em seu disco Refavela, de 1974), como abrigou outros compositores importantes do soul-funk brasileiro (Cassiano, Hyldon e Gerson King Combo). Os bailes black também deram guarida para músicos como Tim Maia e Jorge Ben que, embora de inserção mais antiga na música brasileira, amargaram, durante os anos 70, uma espécie de ostracismo.
A primeira grande equipe de funk, a Furacão 2000, foi criada em 1973 e está até hoje em atividade. Outras, como a Pipoo’s, Espião Shock de Monstro e New Funk, também surgiram do mesmo caldo cultural – a população jovem das favelas, de morros e subúrbios cariocas – com a mesma função, promover bailes semanais que reúnem milhares de jovens e muitas vezes são a única alternativa de diversão e de expressão cultural de algum tipo em áreas carentes e dominadas pela marginalidade. Grupos de jovens da mesma comunidade ou bairro que vão juntos ao baile são chamados de "bondes", as garotas são "popozudas", "cachorras" e "preparadas". Enquanto o hip hop paulistano (e, em certa medida, aquele que vem do Distrito Federal também) é marcado por um discurso mais politizado, as "galeras" do funk escolhem temas mais diretamente conectados com as suas possibilidades imediatas de diversão: sexo, futebol e os próprios bailes.
Se em São Paulo, onde também existiam bailes black – os mais famosos eram promovidos pelo Chic Show –, as preferências tendiam para o rap mais combativo do Public Enemy, no Rio o que mais pegou mesmo foi o miami bass. Marlboro, um dos principais DJs dos bailes funk nas década de 80 e 90, afirma que esse ritmo, do qual foi um dos introdutores, fez sucesso antes aqui do que nos EUA.6 No final dos anos 80, foi lançado o primeiro disco com composições brasileiras, "Funk Brasil Volume 1", mas foi na década de 90, que o mundo funk carioca passou a ter mais visibilidade. Músicos como Fernanda Abreu e Lulu Santos incorporaram a batida dos morros e subúrbios em seus discos; com a crescente popularidade de músicas de base eletrônica, casas noturnas da Zona Sul passaram a tocar também charm (versão mais romântica) e funk carioca até o primeiro estouro popular de uma vertente mais melódica e lenta, o chamado funk melody, nas vozes de Claudinho e Buchecha ("o que eu quero é ser feliz/andar tranqüilamente na favela onde eu nasci"). O grito de guerra dos bailes funk, "u-tererê", migrou para estádios de futebol e shows e começou a ser ouvido em todo o Brasil. Não foi só em cadernos de cultura que o que acontecia nos bailes passou a aparecer: as páginas policiais noticiavam, em tom alarmado, as brigas entre galeras e mesmo os "arrastões" que assustaram o Rio de Janeiro eram atribuídos aos mesmos jovens que dançavam, ora, funk, nas noites de sábado.
A bola da vez
No ano passado, o "fenômeno" explodiu, numa bem construída operação de marketing encetada sobretudo pela gravadora Sony. De certa forma, a grande sacada foi vender o funk carioca como alternativa para a axé music, já um tanto desgastada pela superexposição. Em comum com o axé, o funk carioca tinha o potencial para oferecer uma música com letras de duplo sentido e inúmeras alusões mais e menos explícitas à sexualidade, uma batida marcada fácil e coreografias próprias já desenvolvidas nos bailes, prontas para serem estilizadas em apresentações na televisão. O primeiro indício de que a aposta daria pé foi o estouro de "Popozuda", do grupo DeFalla, que disseminou a figura da "popozuda", a garota gostosa e pronta para o sexo, da mesma forma que as loiras e morenas da axé music em suas danças da garrafa e em sua disposição para, bem, segurar o "tchan". Esse funk carioca, de certa forma "acanalhado" e reformatado para os mesmos programas de televisão que vêm vendendo axé há uns 5 anos, tornou-se ainda mais visível com o lançamento do CD do Bonde do Tigrão, grupo cuja imagem foi cuidadosamente rearrumada de forma a parecerem menos negros e menos periféricos; portanto menos ameaçadores: os meninos ganharam roupas e cabelos, por exemplo, mais parecidos com os dos grupos de pagode do que com a imagem dos grupos de hip hop. Deu certo. O funk carioca tornou-se o ritmo do verão 2001, ganhou bailes mauricinhos em São Paulo e chegou ao carnaval baiano, principal vitrine de ritmos pop-popularescos.
Afinal, qual é o escândalo?
Até aqui, nada demais. O funk carioca é só mais uma "bola da vez" no processo de manufatura de fenômenos musicais que se estabeleceu plenamente nos anos 90 e, grosso modo, poderia ser descrito pela seguinte fórmula: detecta-se a existência de um estilo musical popular, reembala-se com tintas pop e popularescas para consumo menos regional, tanto no sentido geográfico quanto no social, e vende-se em larga escala. A indústria fonográfica brasileira, dominada pelas grandes multinacionais do entretenimento (Sony, Universal, EMI-Warner), percebeu em algum momento entre os anos 80 e 90 duas características importantes do mercado brasileiro: a) o Brasil tem uma tradição e diversidade musical que não dá para ser desprezada; portanto, vender música aqui significa vender sobretudo música brasileira e b) o fosso que separava aquilo que era do agrado da classe média do gosto das classes populares diminuiu.
O que aconteceu com o funk carioca, em certa medida, já havia acontecido com vários outros gêneros nos anos 90. Foi assim que a música do carnaval baiano (originalmente, uma forma neo-afro de samba e reggae que, uma vez diluída, tornou-se a axé music) passou a ser produto o ano inteiro, que o sertanejo travestido de country saiu do âmbito da população rural e tornou-se a música romântica por excelência no lugar vago por um Roberto Carlos cada vez mais exaurido, que o samba fundo-de-quintal, uma espécie de samba mais doméstico e livre das armadilhas do samba-enredo, largou sua roupagem malandra carioca e ganhou ares corno-arrivistas8 transformando-se no pagode paulistano mauricinho, que o forró hoje em dia ganhou uma vertente chamada de "universitária", em que basicamente um bom sanfoneiro nordestino toca com garotos de classe média para jovens com nostalgia de suas viagens a Porto Seguroo…
Em comum, além de um certo padrão nas manipulações comerciais e industriais promovidas pelas gravadoras, esses gêneros sofrem também dos efeitos de uma espécie perversa de exclusão estético-ideológica do que se chama de MPB. Ao contrário do que sugeriria a simples e desapaixonada decodificação da sigla – lembrando, música popular brasileira –, MPB não é o nome de toda a música não-erudita produzida em território nacional, mas um termo cunhado entre o final dos anos 60 e início dos 70 para designar a música de alguma forma filiada às revoluções estéticas da bossa nova, seja em sua vertente nacional-popular (música de protesto), seja em seu formato pop-anárquico (tropicalistas), seja no seu lado neotradicionalista (representado por compositores como Paulinho da Viola, Chico Buarque). Ou seja, um gênero específico, mais ou menos circunscrito a uma única geração, classe social e tipo de formação cultural, arroga-se o direito de chamar-se simultaneamente de popular e brasileiro, a despeito da variedade de músicas que poderiam ser consideradas brasileiras, dado que são criadas em território nacional, e da enorme diversidade étnica e cultural de seu povo.
Assim, firmou-se uma espécie de cisão dentro da música feita no Brasil: de um lado, uma música admitida como a música popular e brasileira tal como a classe média intelectualizada entendia tanto o "popular" quanto o "brasileiro"; de outro, todas as outras músicas tão ou mais populares e brasileiras quanto a MPB. Evidentemente que não se pode atribuir essa manobra a um calculismo maquiavélico por parte de compositores, críticos, público, pensadores e intelectuais da MPB, mas o fato é que este pensamento ditou por muito tempo e continua a nortear, de certa forma, as regras do bom gosto e do admissível como "popular" e "brasileiro" em música brasileira.
Como se vê, essa não é uma disputa qualquer na cultura brasileira. Até mesmo a contracorrente dessa espécie de pensamento único emepebístico, representada sobretudo pelo ultranacionalista José Ramos Tinhorão, tem o mesmo impulso de tentar tutelar o que deve ser o "popular" e o "brasileiro". Sobre axé, o crítico escreveria o seguinte: "As demais criações classificadas como ‘brasileirass’ surgidas pelo correr da década de 1980 – principalmente durante o carnaval baiano – viriam comprovar apenas a extensão da penetração que os alcançavam entre as próprias camadas populares". O tom é obviamente de lamentação por um gosto popular perdido, uma vez que este foi contaminado pelo que o autor chama de "ritmos de massa internacionais" e, portanto, já não pode mais aspirar.
O que parece espantoso é o fato de não ter ocorrido ainda aos árbitros do "gosto popular" a constatação de que o "povo brasileiro" não é exatamente o que se imaginava que ele era e muito menos o que os intelectuais e pensadores à esquerda, à direita e ao centro gostariam que ele fosse. Nos dois casos, ou seja, tanto no pensamento em torno da MPB quanto naquele que a critica, parece que, muito mais forte do que o interesse real pela cultura que os vários povos brasileiros possam estar produzindo, é a vontade de normatizar, regular e decidir o que deve ou não ser a cultura do povo brasileiro.
Na música dos anos 90, o povo brasileiro (o real e não o imaginário) vem sistematicamente subvertendo tudo ou quase tudo o que se esperava dele – e os tubarões das gravadoras, os apresentadores maliciosos da TV têm sido muito mais rápidos em perceber isso do que os intelectuais. Antes de classificar, julgar e condenar (ou até mesmo festejar, o que dá mais ou menos na mesma), o funk carioca e todos os escândalos que se criaram em torno dele são só mais um capítulo dessa história.
*Bia Abramo é jornalista.
Notas
1. FRANCO, "O relaxo é pai do funk", artigo publicado na "Revista da Folha" , em 25/02/2001.
2. DIMENSTEIN, Gilberto. "Dia Internacional da ‘Popozudaa’", artigo publicado na Folha de S. Paulo em 11/03/2001.
3. Shuker, Roy. Vocabulário do Pop (editora Hedra, 1999)
4. A idéia dessa genealogia foi tomada de empréstimo do jornalista e escritor Alex Antunes
5. VIANNA, Hermano. O Mundo Funk Carioca (Jorge Zahar Editor, 1997)
6. MENA, Fernanda. "Veteranos revelam história do funk carioca", entrevista publicada no "Folhateen", em 26/02/2001
7. "Música: Explosão Nacional", revista Veja, 20/03/1996
8. Termo tomado de empréstimo de Alex Antunes
00:53 | Marcadores: funk total, ouvir funk, radio funk | 5 Comments
Funk Brasil - DJ Marlboro comanda a massa
Podem começar a chorar, hypes descolados que sofrem de funkfobia. O DJ Marlboro mostrou com quantos beats se faz um baile funk para balançar o popozão da paulistada antenada. Pilar do funk carioca, o DJ está na estrada há mais de 20 anos e foi uma das atrações do Skol Beats, em São Paulo, o maior evento de música eletrônica do país. O DJ tocou no meio do sambódromo do Anhembi, em cima do caminhão do trio elétrico da Pepsi, que estava situado entre o palco principal e as tendas.
Enquanto o DJ Patife mandava aquele sonzinho aguado no Live Stage e a sensação Tiga (DJ canadense) lotava a tenda The End, Marlboro desfilava o melhor do funk para uma multidão. Teve desde MC Leozinho, dono de "Se ela dança eu danço", o hit do momento, até "Elas estão descontroladas", passando, como não podia deixar de ser, por Tati Quebra-Barraco. Assim falou um carioca, com sorriso estampado no rosto: "Paguei 300 pratas de avião para ver um baile funk em São Paulo, é inacreditável".
O investimento é válido porque não há nada mais divertido, no melhor dos sentidos, do que ver os paulistas engolirem o preconceito e a marra de descolados cosmopolitas e se esbaldarem no batidão. Mergulhados no set e fazendo tudo que seu mestre Marlboro mandava, bateram bundinha e obedeceram aos comandos do DJ: todo mundo cantando o refrão com as mãos para o alto. Bonito de ver.
O funk é a música eletrônica brasileira
Isto posto, conclui-se: o funk extrapolou as fronteiras do Rio, o "estrago" é irreversível. O estilo levou cerca de dez anos para sair do subúrbio e chegar aos bem nascidos da zona sul carioca. E agora, depois de uma breve passada pela novela das oito, chega com sucesso a São Paulo, a meca da cena eletrônica nacional.
Vale lembrar que a escalação de Marlboro para o festival foi bastante discutida. Uns disseram que era uma heresia, entre delongas preconceituosas. Outros resolveram poupar energia dessa discussão boba para melhor gastá-la na pista de dança. No meio da confusão, palmas para a produção do evento, que resolveu peitar e partiu para a inovação. O que deu munição para os adeptos da seguinte teoria: o funk carioca é a autêntica música eletrônica brasileira.
Antes que os apressados disparem que é tudo uma cópia do miami bass, vamos aos fatos. Corta para 1982, Brooklyn, Nova York. O hip-hop começa a tomar forma e o rapper Afrika Bambaataa (novato à época) tem a seguinte sacada: juntar a base rítmica do estilo que então surgia com os teclados do alemão Kraftwerk. Nascia a fundamental "Planet Rock", com uma batida que ecoa até hoje.
Em Miami, sexo substituiu engajamento
O hip-hop aportou em Miami poucos anos mais tarde. Foi muito bem tratado pelos os produtores locais: ganhou graves mais gordos, uma batida mais forte e, talvez por conta da praia ou da aura festeira da capital da Flórida, letras que beiravam a mais pura sacanagem. É isso mesmo: sai o discurso social dos negros engajados de NY e entra o sexo em cena. Era um tal de "shake your booty" pra lá e pra cá que não acabava mais.
É na produção em massa da vertente Miami do hip-hop que o funk carioca vai se "inspirar". Lá no meio da década de 80, os hits dos bailes de subúrbio eram as músicas gringas adaptadas para o português: mantinha-se a base original e criava-se a letra em cima. Depois de toscamente gravadas, eram tocadas pelos DJs nas noites com sucesso garantido. Atire a primeira pedra quem nunca dançou ao som de "Mulher feia cheira mal como urubu". Guardadas as proporções, o funk, assim como a bossa nova, se utilizou de elementos de música gringa para forjar algo novo, inédito e genuíno.
O próximo passo para dominar o mundo já foi dado. Os pancadões das favelas do Rio invadem o exterior cheios de pompa e circunstância. A prova mais recente está na figura do DJ Diplo. Em 2003, o americano descobriu o funk com amigas brasileiras em Nova York e, desde então, vem usando elementos do estilo em suas produções.
Responsável pelo disco da cantora M.I.A, sensação do pop e do último Tim Festival, Diplo usou samples de hits dos bailes daqui para entregar autênticos pancadões à cantora do Sri-Lanka - tire a prova ouvindo a nervosa "Bucky done gun". Logo em seguida, o DJ usou seu selo para lançar nomes do funk brasileiro no exterior.
Quem também pega carona nessa onda é Edu-K. Ex-vocalista do grupo de rock De Falla, ele produziu a atual darling dos DJs gringos. Com os vocais gritados de Deize Tigrona, "Sex-o-matic" vem fazendo bonito - entrou na compilação do mês passado da importante revista Mixmag, além de uma resenha elogiosa ao disco do rapaz na mesma publicação.
Podem reclamar, espernear, mas não dá para ignorar. O funk carioca é uma realidade, só não vê quem prefere se fazer de surdo.
15:12 | Marcadores: dj, dj marlboro, funk neorotico | 7 Comments
A RAINHA DO FUNK (CARIOCA) JAPONÊS - TIGARAH
Entrevista com: Yuko Takabatake, ou melhor: Tigarah
O funk carioca está cada vez mais internacional. A japonesa Tigarah é uma prova disso. Com um EP lançado exclusivamente na internet e preparando seu primeiro álbum para o ano que vem, a cantora de 24 anos conta como conheceu e se apaixonou pelo funk carioca, que se tornou uma de suas influências musicais. De mudança de Tóquio para Los Angeles, ela conta também, nesta entrevista, porque largou uma carreira acadêmica para se tornar cantora e como a internet auxiliou na divulgação do seu trabalho.
Roberto Maxwell - Você diz em seu site que começou sua carreira depois de se formar em Ciências Políticas. Em que momento você desistiu da carreira acadêmica para se tornar cantora?
Tigarah - Bem, quando eu era adolescente, eu achava que atuando na política poderia melhorar este mundo. Era uma coisa meio naïve. Depois que eu entrei na universidade, eu compreendi que a maioria dos políticos não trabalham honestamente e fiquei chocada. Então, eu não queria ser mais um deles. Eu comecei a pensar em ser artista para expressar minhas idéias e passar boas energias para as pessoas. Eu queria fazer as pessoas felizes. Eu acredito que este é um dos melhores caminhos para fazer este mundo melhor. Por isso, eu escolhi a música. Foi há cinco anos atrás. Música tem mensagem, tá ligado?, e foi fácil para mim começar a fazer música. Eu sei que a indústria da música está cheia de porcarias mas, pelo menos, eu posso colocar a minha mensagem e atingir diretamente as pessoas. Eu ainda acredito que isso é uma coisa legal e é por isso que eu estou aqui.
RM - Quando e onde você conheceu o funk carioca? Por que você concluiu que o estilo poderia ser uma influência na sua música?
T - Pouco depois de eu ter começado a escrever músicas, eu encontrei o funk carioca. Foi numa festa na casa de um amigo brasileiro. Você sabe, embora a maioria das pessoas não tenha conhecimento, muitos brasileiros vivem no Japão. Por isso, eu conheci essa música bacana. Quando eu ouvi pela primeira vez, eu fiquei “QUE P. É ESSA???” (risos). O negócio bateu em mim e me trouxe um monte de inspiração. Eu não escolhi ou decidi que poderia ser uma influência. Simplesmente, comecei a escrever da minha maneira com o funk carioca, a partir daquele dia. Aconteceu naturalmente. :)
RM - Você diz que esteve no Brasil algumas vezes. Quais cidades do Brasil você visitou?
T - Basicamente, eu fiquei em São Paulo, onde meu melhor amigo mora. Mas, eu fui ao Rio também. As duas cidades são bastante legais. Eu fui num evento no Rio onde, por coincidência, eu encontrei o Mr. D que é meu DJ e produtor. Naquela ocasião, a gente decidiu trabalhar juntos, o que a gente vem fazendo há mais ou menos 3 anos. Fazemos música bacana desde que a gente se conheceu. Por isso, eu amo o Brasil!
RM - Você foi num baile funk no Rio de Janeiro? Lembra-se onde? Qual foi a sua impressão sobre o baile?
T - Eu fui há algumas festas no Rio. Uma delas, eu acho que foi num clube grande, próximo à praia de Ipanema. Era um local bem grande e eles tocavam outros estilos além do funk. Foi muito legal!!! Todo mundo dançando aqueles passos do funk. Coisa quente e louca, mesmo (muitos risos). Mas, estava todo mundo parecendo muito feliz e se divertindo à beça. Eu me diverti muito, também. Os brasileiros adoram dançar, beber e comer. Eu acho que eles sabem mesmo como aproveitar a vida. Isso é maravilhoso! Temos muito o que aprender com o Brasil!!! :)
RM - Você disse que encontrou o Mr. D no Brasil e começou a trabalhar com ele. Você já trabalhou com algum produtor brasileiro como o DJ Marlboro?
T - Eu conheci alguns produtores no Brasil, mas não produtores de funk. Eu adoraria encontrá-los da próxima vez que eu for lá.
RM - No Brasil, o funk carioca ainda é um estilo marginal, mas vem se tornando conhecido ao redor do mundo. Na sua opinião, por que o estilo consegue ser tão universal ao ponto de seduzir uma garota japonesa, como você?
T - Bem, eu acho que a batida do funk é uma coisa! É tão original, embora tenha algo de miami bass. Então, ela faz o povo dançar sem parar! Eu não entendo o que eles dizem, tá ligado?, mas eu fico louca para dançar quando eu ouço a batida. Eu acho que a língua não importa, as pessoas sentem a batida e querem dançar.
RM - Nos bailes funk do Rio de Janeiro, as garotas costumam se reconhecer em estereótipos como a "tchutchuca" (garotas que fazem a linha inocente, lolita), "tigresa" ou "cachorra" (garotas bem sexy que escolhem os caras que elas querem), "popozuda" (garotas com o bum-bum avantajado) e "purpurinada" (garotas que usam glitter no corpo, mais estilo fashion). Você sabia disso? Que tipo de garota você seria?
T - Que engraçado, isso! Eu não sabia! Deixa eu ver... Eu acho que às vezes eu sou tchutchuca, às vezes cachorra!!! (Muitos risos.) Sim, depende do clima e do cara, tá ligado?
RM - Quais são os temas das suas músicas? (Desculpa, mas a maior parte delas é em japonês e eu não pude entendê-las.) Você fala sobre sexo como as cantoras de funk brasileiras?
T - Não, não, não. Eu não falo sobre sexo. Minhas mensagens são sobre o egocentrismo na sociedade capitalista, choque cultural na globalização e o girl power. Às vezes, eu conto algumas estórias, também. Há algumas traduções no meu website. Dá uma checada.
RM - Você está lançando seu primeiro EP na internet de forma independente. Por que você escolheu a internet para lançar o CD? Você tem planos de ser contratada por uma major?
T - Hum, eu acho que as muitas pessoas usam computador hoje em dia e passam mais tempo na frente dele do que vendo TV. Eu fiz recentemente um myspace e achei que poderia ser legal mostrar minhas novas músicas para as pessoas, já que elas têm um pé no funk carioca que é um ritmo cool underground e, também, porque eu canto basicamente em japonês. Minha dance music é completamente diferente. É realmente uma nova dance music, tá ligado?. Nova geração. Por isso, as pessoas adoram. Mais e mais fãs aparecem através do MySpace. Eu compreendi que a internet é excelente, desde que você tenha uma música realmente boa.
Se eu estou planejando ter um contrato com uma major? Hummm, não sei... ;) O que eu quero é mostrar minha música para o máximo possível de pessoas ao redor do mundo e fazê-las felizes. Sendo assim, se o contrato com a major me permitir isso, tê-lo pode ser uma boa escolha.
RM - Você conhece as estrelas brasileiras Tati Quebra-barraco e Deize Tigrona ou outros artistas de funk do Brasil? O que você acha deles?
T - Claro que eu as conheço. Meus artistas favoritos são a Tati Quebra-barraco e o Bonde do Tigrão. Eles são muito bons! O Bonde do Tigrão faz um mix com o hip-hop, por isso eu gosto muito deles :)
RM - Existe algum tipo de “cena funk” em Tóquio? Tem clubes onde se pode ouvir e dançar funkcarioca? E DJ que toquem o estilo? Você já tocou em algum desses lugares?
T - Sim, alguns clubes tocam funk carioca, mas não são muitos. Dois ou três clubes em Tóquio e algumas outras festas brasileiras no interior do país. Muitos brasileiros vivem no interior do Japão, tá ligado? Eles formam suas próprias comunidades. Nesses lugares, há cultura brasileira e eles tocam diversos tipos de música brasileira nos clubes. DJ de funk eu acho que tem apenas um no Japão. Seu nome é Rokotsu Kit e ele é meu amigo. Não há muita gente que conheça o funk carioca aqui. Mas, ele tem muitas músicas e toca em tudo quanto é evento de funk Eu também já toquei em eventos de funk, em alguns clubes. E o Rokotsu Kit tocou também. Não há muitos conhecedores em funk no Japão, então todo mundo se conhece e quando há algum evento de funk, a gente vai lá e toca. Mas, a partir desse ano, mais pessoas estão conhecendo o funk, aos pouquinhos. É excitante ver como as pessoas reagem à música. Eu sabia que as pessoas no Japão iriam curtir o funk também e, das pessoas que eu conheço, eu fui a primeira a ter contato com essa parada maneira. ;)
RM - Você está se mudando para Los Angeles. Quais são seus planos para o futuro? Você tem planos de tocar no Brasil? Já tem alguma data marcada?
T - Sim, eu estou me mudando pra lá. Estou finalizando meu primeiro álbum ainda este ano e vou lançá-lo ano que vem. Antes, vou gravar um clipe. Por isso, vou andar bem ocupada em breve. Eu toco na Suécia em 20 de setembro. (A entrevista foi realizada duas semanas antes deste evento.) Minhas músicas são hits nas pistas de lá. Eu estou muito excitada. E, quer mais? Eu devo fazer um show no Brasil. Ainda não sei quando mas, com certeza, vou estar por lá em breve. Muito excitante!
15:04 | Marcadores: Rainha Japonesa, Tigarah | 2 Comments
Malha Funk - História
Malha Funk - Sinônimo de Alegria Brasileira
Fundado em fevereiro de 2000, o Malha Funk vem se destacando pelo seu jeito alegre de se apresentar. Composto por moradores de comunidades humildes do Rio de Janeiro, Padre Miguel, Marechal Hermes e Bangu, o grupo está indo cada vez mais longe, em busca do auge e do sucesso. Tanto é que os vocalistas Andinho, Geléia e os dançarinos Léozinho, Raphael e Edinho já possuem em seus currículos a participação na Minissérie Cidade dos Homens, da Rede Globo de TV (Outubro de 2003), a qual abriu portas para outros convites, como o Tim Festival no Rio de Janeiro e, em São Paulo, o Sonar Sound (Setembro de 2004), ambos junto ao Dj Malboro. Participaram também do programa Mulheres (TV Gazeta-2004) e mais recentemente do Mais Você (Globo), Sabadaço (Band), Bom D+ (Record), Caldeirão do Huck (Globo), Beleza Pura (Band), Super Pop (Rede Tv), Boa Noite Brasil (Band) e Show do Rio (CNT).
Dispondo de um repertório bem eclético, o Malha Funk vem conquistando os quatro cantos do Brasil, entre eles as cidades de São Paulo, Belo Horizonte Porto Alegre, Vitória, Mato Grosso do Sul, Recife, Bahia, Paraná, Santa Catarina, além do Paraguai. Seus maiores sucessos são trilhas sonoras obrigatórias nas melhores festas do gênero, como as músicas Virar de Ladinho (Cd Melhores do Dj Malboro, Sabadaço e Cobras e Lagartos). Nova Dança-Melô do James Brown (Cd Zoeira Funk 3, Dj Tubarão e Cd Matinê do Ricardo Gama), Malha Funk na Bahia (Cd Big Mix de Verão), Sunguinha de Bichinho, Noite Carioca, Kika Kika, BNHC, Clube das Mulheres, Tudo o que o Mestre Mandar, entre outras.
Assim, espalhando alegria e irreverência, o Grupo Malha Funk segue cantando e encantando todo país em busca de um só objetivo: mostrar para todos que dentro da favela não existe somente drogas e violências, mas também muita arte e cultura.
Eu Te Amo
Malha Funk
To ligado assim no teu jeito
To vidrado bem nos teus olhos
Na batida do teu coração
Louco pra te dar mais um beijo
Pra matar o nosso desejo
Só sei que te amar é tão bom
Nunca me entreguei tanto assim
Começo,meio e fim
Achei a dona do meu coração
É muito diferente com você
Sabe me levar até o céu
Faz me transbordar de prazer
Eu te amo
Eu te chamo
Eu te quero,toda pra mim
Eu te amo
Eu te espero
Até o fim,até o fim (Refrão)
23:07 | Marcadores: funk como le gusta, malha, malha funk | 0 Comments
Fergie | Big Girls Don't Cry
Fergie -> Big Girls Don't Cry
A música mais badalada do momento - [Fergie]
Da Da Da Da
The smell of your skin lingers on me now
You're probably on your flight back to your hometown
I need some shelter of my own protection baby
Be with myself in center, clarity
Peace, Serenity
I hope you know, I hope you know
That this has nothing to do with you
It's personal, myself and I
We got some straightening out to do
And I'm gonna miss you like a child misses their
blanket
But I've gotta get a move on with my life
It's time to be a big girl now
And big girls don't cry
Don't cry,
Don't cry,
Don't cry
The path that I'm walking, I must go alone
I must take the baby steps til I'm full grown,full
grown
Fairy tales don't always have a happy ending do they
And I forseek the dark ahead if I stay
I hope you know, I hope you know
That this has nothing to do with you
It's personal, myself and I
We got some straightening out to do
And I'm gonna miss you like a child misses their
blanket
But I've gotta get a move on with my life
It's time to be a big girl now
And big girls don't cry
Like a little school mate in the school yard
We'll play jacks and uno cards
I'll be your best friend and you'll be mine
Valentine
Yes you can hold my hand if you want to
'cause I wanna hold yours too
We'll be playmates and lovers and share our secret
worlds
But it's time for me to go home
It's getting late, dark outside
I need to be with myself in center, clarity
Peace, Serenity
I hope you know, I hope you know
That this has nothing to do with you
It's personal, myself and I
We got some straightening out to do
And I'm gonna miss you like a child misses their
blanket
But I've gotta get a move on with my life
It's time to be a big girl now
And big girls don't cry
Don't cry,
Don't cry,
Don't cry
La Da Da Da Da Da.
22:57 | Marcadores: funk gratis, funk sexo, mp3 de funk, ninja do funk | 0 Comments
O Pancadão do Caldeirão - CD Funk Música 2007
Já saiu Corra!!!
Já está à venda em todo o Brasil o CD definitivo de
funk 2007:
O Pancadão do Caldeirão !!!
Só sucesso! 22 músicas mixadas !!!
Lógico que o funk foi e é o ritmo do ano aqui no Brasil, e assim vai ser ano que vem também com certeza.
Este CD é uma coletânea do que tá rolando de mais legal no funk atual.
Vamos faixa a faixa do novo CD do Pancadão do Caldeirão:
01 - MR Catra – Adultério - O sucesso do momento. Em cima do “Tédio" do Biquini Cavadão, a música tá estourada em todos os bailes e pistas de Norte a Sul do Brasil. Com um detalhe. Esta versão cê pode mostrar até prá tua avó. Não tem palavrão, pode ficar tranquilo(a)... hehehe
02 -Marcio G - Pernão Sarado. Outro sucessão. É só começar aquele piano da introdução prá fazer a pista chacoalhar !!!
03 - Perlla - Eu vou. Depois do Vacilão e de Totalmente Demais, este é o novo sucesso da Perla. Garantido também na pista.
04 - Robinho da Prata - Copo de vinho. Outra que tá arrebentada em todo Brasil. Como a música diz "E vai descendo, perdendo a linha devagar". Funk sexy!
05 - Buchecha e Marcinho - Luminosa - Remix do sucessão, na voz do Buchecha e do Marcinho.
06 - Paulinho - Minha Versão - hehehe. Resposta ao Tremendo Vacilão. A letra é muito divertida, respondendo à Perla tudo aquilo que ela falou do coitado do Vacilão...
07 - Didô -Tô Na Pista pra Negócio - Nem preciso falar. "E aí mulheradaaaaaaa!!!!". É só começar e todo mundo fica louco.
08 - MC Leozinho - Isso É o Funk - Depois do "Se Ela Dança Eu Danço", Leozinho vem com este tamborzão prá cima. Sucessão!
09 - Princesa e o Plebeu - Estrela de TV - Funk romântico, bem bacana.
10 - Roni & Baby – Gandaia - Sucesso atual dos bailes. Música com clima de verão total!
11 - MC Biru Leybi - Be-A-Bá - Ele está de volta ! Depois da Periquita, Biru Leybi agora ensina o tal do Be-A-Bá prá galera pular... Completamente alucinado!!
12 - Pé de Pano - Hoje Eu Vou Beijar Você - Considere isso uma ameaça!!! Pé de Pano é sucesso faz tempo nos bailes. E esta música é o lançamento que tem tudo prá deixar a galera louca na balada. Muito bom!
13 - Os Caçadores - Tio Toin - hahahaha. Sem comentários. Os Caçadores são os caras mais divertidos. A letra é de rolar de rir. O Tio Toin da música só cria confusão....O difícil é entender quem fez o quê. hahahaha.
14 - Os Ousados – Sabãozinho - Sucesso total nas pistas. Aquela cornetinha do começo dá o clima da música. E "Pega o Sabãozinho"!
15 - Latino - Catcha Cachaça - Remix do Dennis DJ pro sucesso do Latino, o cara mais figura da música nacional atual. A letra é cheia de sentido duplo... hehehe.
16-Cidinho e Doca - Ja É - Mais um sucesso dos bailes pro CD do Caldeirão. O refrão "Já é, Já é" é o hino da galera nos bailes.
17 - Cacau – Complicado - A cada música a Cacau se supera. A Cacau é sucesso onde quer que vá. Ela fala de amor e romance de uma forma que ninguém faz. Muito legal. A mulherada fica louca com as letras da Cacau.
18 - Magrão - Te beijar - Mais romance na pista. Bem bacana!!!
19 -Evelyn – Demoro - Remix do sucesso, numa pegada mais tamborzão com climas de teclados bem legais. O vocal da Evelyn é marcante e sucesso onde toca.
20 - Cidinho e Doca - Rap da Felicidade - Remix de um dos maiores sucessos do funk de todos os tempos. Com umas pegadas de guitarra "nervosa" e o batidão pegando solto por baixo. Bem legal!
21 - Bob Rum - Rap do Silva - Mais um remix de um clássico do funk. Com uma introdução de samba, tamborzão rolando com cavaquinho, o remix ficou muito bacana.
22 - Jack e Chocolate - Um Morto Muito Louco - Mais um remix de outro sucesso do passado. Aquele sonzinho do "Morto" original deu lugar a uma guitarra. Detona qualquer pista. Muito legal.
Ufa!!!
Tá bom procês ? 22 músicas, ou melhor, 22 sucessos, um atrás do outro. É colocar o CD pra tocar e curtir direto. Não precisa nem de DJ... hehehe. Perdi o emprego agora... hahahaha.
Divirtam-se !!!
17:29 | Marcadores: cd, festa funk, pancadao do caldeira | 10 Comments