Funk - Lavagem cerebral em uma democracia!

José não era tão velho assim, mas curtia músicas do estilo “MPB de qualidade”, como se orgulhava de dizer, próprias de uma geração antes da sua, porque aprendeu a gostar desse estilo com os irmãos mais velhos, universitários, que já se foram. Além disso, não surgiu uma MPB nova de qualidade para substituí-la. Ou pelo menos, se surgiu está escondida nos guetos universitários e burgueses, longe do grande público ou dos rádios. José também gostava de uns “Rocks internacionais antigos”, não para se “americanizar”, mas porque os anos 60 trouxeram realmente uma onda inovadora e balística que predominou neste estilo de música. José relutou em aderir à onda dos CDs e resistiu o quanto pode com os discos de vinil, até que se rendeu ao som puro e à praticidade dos CDs. Mas não abandonou sua velha vitrola. José gostava de dizer: “Posso até passar para os discos modernos, aderir a Internet, adaptar um pouco as minhas roupas, mas nunca, nunca irão conseguir me massificar! Nunca irão conseguir me fazer gostar da Egüinha Pocotó! Sempre serei eu mesmo. Independente e original.


Chega o carnaval. Após uma semana inteira de trabalho, José vai para um clube, se refrescar um pouco em uma piscina e relaxar, já que teria que trabalhar no show carnavalesco. No clube, os alto-falantes tocavam sem parar o CD do MC Serginho. José vê com tristeza algumas meninas de uns oito anos de idade, dançarem dentro da piscina ao som de uma música do tal MC, que falava umas obscenidades, citando abertamente códigos eróticos que surpreendiam José, apesar dos seus trinta e poucos anos de vida. De volta para casa, no som do carro, mais Pocotó, através das rádios da região. Em casa, enquanto se preparava para o trabalho, as redes de TV cobriam o carnaval, alternando as músicas do Serginho com o decadente Axé Music. Mas, no trabalho, no carnaval, é que José passaria por sua grande “provação”: em pé no meio da multidão, em atitude de alerta, José era massacrado horas e horas pelo som da “Egüinha” e pior, agora executado por uma banda semi-amadora, imitadora do “ídolo”. Na multidão que delirava, movida pelos acordes daquela música horrível, José se sentiu extremamente só. Ele pensou consigo mesmo que aquele som da Eguinha Pocotó era algo inumano. Era muito mais gritada do que cantada propriamente. Era algo intragável, agressivo, muito longe do se poderia classificar como música. Mas, tudo acabou e chegou a hora de descansar. Enfim, livre do Pocotó. Porém, José se esqueceu de que o carnaval agora era perto de sua casa e da cama lhe chegavam as ondas sonoras de algo que sobrou do Carnaval, que por sinal era mais Pocotó. Mas, uma surpresa: José começava a gostar da coisa. Na cama, impedido de dormir, ele começava a cantarolar alguns refrões, já tão familiarizado com a melodia.

No dia seguinte tudo estava consumado. José descobriu: Ele amava o pseudo-funk e a música Egüinha Pocotó. Cedinho ele foi até a loja de discos mais próxima, levando seus velhos discos de MPB e Rock antigo para trocar pelos CDs de Serginho e Kelly Key. Ele agora entendia tudo: um novo mundo se abria a seus pés, teria sucesso profissional, mais amigos e garotas, ele finalmente seria aceito no clube, no grande clube da Uniformização. Tudo estava consumado. Algum “Engenheiro Social” da América do Norte, de terno fino, em um grande edifício, riscava, exultante, mais um nome em uma longa lista. Porém, quem reparasse bem em José andando na rua, no meio da multidão veria que José não era mais ele mesmo. Tinha um rosto com expressão vazia, robótica.

Este artigo eu queria ter escrito pouco tempo depois do carnaval, mas depois veio a Guerra do Iraque e voltei minhas atenções para o conflito. Parece-me que o objeto da estória já perdeu um pouco da atualidade, tamanha a velocidade com que mudam os modismos da Indústria Cultural. Eu acho que quase já não estou ouvindo mais o MC Serginho e seus “Hits” como Egüinha Pocotó e a pérola “Mesa”, o que atesta o caráter descartável dessa cultura. Aliás, a coisa é tão passageira que eu já havia escrito uma crônica semelhante antes com o “Bonde do Tigrão”, que não deu para publicar na época e pouco tempo depois quando a oportunidade de publicar o assunto reapareceu, tive que adaptar como exemplo a “Egüinha Pocotó”, porque o bonde já havia ficado para trás. Bem mas vamos ao texto, pois afinal, embora mudem-se os rótulos, a fórmula é a mesma.

2 comentários:

Anônimo disse...

adorei a lavagen

norma disse...

sou alexandrenogueira0604@hotmail.com kinheshow@hotmail.com kue ro ver ode padre miguel e d saguero nogpj@hotmail.com fabribangu trasido por engleses vira bangshopping tento em em sexo no baile funk mais não entra ilmateacher@gmail.com