Revista Americana se assusta com Funk Carioca

Em entrevista recente, o historiador americano e brasilianista Thomas Skidmore afirmou que o Brasil não precisa mais de pensadores estrangeiros para explicá-lo. Talvez o momento seja propício ao movimento contrário: atualmente, os estrangeiros se beneficiariam bastante se procurassem separar o que é fato do que é mitificação na vida da Belíndia. Pelo menos, essa é a impressão deixada pelas sete páginas sobre bailes funk escritas pelo jornalista Kevin Heldman (em reportagem entitulada Nuthin' but a favela thing, ou seja, "Nada além de uma coisa da favela") para a edição de janeiro da revista americana Spin, que acaba de chegar às bancas.

Por algum motivo, o repórter visitou o Rio e só o que conseguiu ver foi violência. Ignorou solenemente a existência de bailes funk "normais", e, a bem da verdade, só foi a um clube, alegadamente em Nova Iguaçu. Na sua reportagem, sai da boca do DJ Marlboro, respeitado pioneiro dos bailes, a seguinte frase: "Ouvi dizer que uma vez, um dos produtores subiu ao palco e gritou: 'o primeiro que me trouxer o dente de um alemão (inimigo) leva este CD!'"

Da mesma forma, ao relatar as complicações com a justiça do produtor da Furacão 2000, Rômulo Costa (que foi encontrado pela polícia e preso na semana passada), o americano reproduz as acusações de tráfico de drogas e apologia ao crime enfrentadas pelo, segundo a matéria, "auto-intitulado padrinho preto do funk" ("the black godfather of funk"). Este, por sua vez, responde às acusações dizendo que os que o perseguem são "bichas" e "putas" ("faggots" and "bitches") querendo aparecer às suas custas. Mas cadê o funk?

Kevin colou num rapaz que é ex-chefe de galera (grupo de funkeiros que baila e briga unido), indo com ele ao baile e à favela e tendo um pouco da visão "das internas": pobreza, racismo e violência, é claro. Testemunhou o chamado Corredor da Morte - área que divide a pista de dança ao meio, onde quem cair apanha -, a dança da bundinha e o (ab)uso de álcool, maconha e cocaína. Aparentemente, ele não foi informado que, até aí, pouca diferença para danceterias da classe média da Zona Sul carioca, que não têm Corredor, mas têm brigas de pitboys e lutadores de jiu-jitsu, fartamente relatadas nos jornais - ou seja, a razão para a violência explodir no que deveria ser divertimento está longe de ser apenas socioeconômica.

Tapando o sol com a peneira

Ao tentar penetrar na vida da favela, escolhendo um personagem e seguindo seus passos, o repórter foi acachapado pela visão da agressividade, e o seu deslumbramento, infelizmente, impediu que a música fosse analisada. Ela é apenas levemente mencionada na explicação de que aquele funk vem do Miami Bass dos anos 80 - e é só. A impressão que fica, ao final das sete páginas, é a de que a música é coadjuvante nos bailes - há poucas especulações sobre o que dizem ou fazem os MCs que comandam as galeras.

É verdade que as letras são cruas, falam de inimigos e batalhas imaginárias entre grupos de bairros diferentes e de sexo sem romance. As músicas têm arranjos pobres e são mal produzidas, porém extremamente eficazes para enervar quem as escuta desavisadamente. O pouco de melodia que existe, usualmente nos vocais, é repetido como ladainhas, sem variar jamais. O batidão também não muda, e teclados quase de brinquedo completam o "arranjo" com sons agudos, preferencialmente metálicos. Mas há - e isso não é relatado na reportagem - quem trabalhe conscientemente sobre o estilo funk do Rio, incluindo percussão e sampler, letras espertas, embora esse ainda não seja o seu formato mais comum. Um exemplo do bom uso da estrutura deste tipo de canção é a premiada (e cada vez mais popular) faixa Us Mano As Mina, presente no disco Seja Como For, do rapper paulistano Xis.

Outras incongruências chamam a atenção na matéria da Spin: o repórter se encontrou com alguns rapazes numa tarde em dia de semana, e os garotos resolveram dar uma amostra de briga de baile ali mesmo. A foto está estampada na revista, como se documentasse a realidade. Realidade mesmo? Está para nascer o brasileiro que não se empolgue com uma câmera apontada em sua direção.

2 comentários:

jacare disse...

ae!!esse reporter vem passar uns dias no brasil...
e ker entender de funk...
ele tem ki saber ki o funk...
naum se ve, se ouve,mas nao so com ouvidos, e sim com o coracao...
o funk nao veio pra agradar niguem,ele veio pra kem realmente,e funkeiro ,funkeiro naum se cria se nasce...nao concordo com a revista,tenho esse direito,pois ele nao concordou com o FUNKKKKK,E NOISSS........

bruno marques disse...

venho nesse comentário dar os parabens pelo seu blog !! muito bom mesmo !!1

Vllwww